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Dor pélvica · Cólica menstrual

O que é dismenorreia? Causas, sintomas e tratamento da cólica menstrual

Dismenorreia é o nome médico da cólica menstrual.

Resposta direta
  • Dismenorreia é a cólica menstrual: dor pélvica cíclica ligada à menstruação. Na forma primária não há doença pélvica; a dor vem do excesso de prostaglandinas endometriais (sobretudo a PGF2-alfa), que provocam hipercontratilidade uterina, isquemia transitória do músculo e sensibilização das fibras de dor. A forma secundária é sintoma de uma condição como endometriose, adenomiose, mioma, doença inflamatória pélvica ou estenose cervical.
  • A cólica primária costuma começar de 6 a 12 meses após a primeira menstruação, quando os ciclos se tornam ovulatórios, dura de 1 a 3 dias e responde bem aos anti-inflamatórios. Quando a dor surge mais tarde, piora de forma progressiva, dura além do fluxo ou vem com outros sintomas, investiga-se uma causa secundária com o ginecologista.
  • O foco da clínica de dor é o manejo da dor: anti-inflamatórios como primeira linha, contraceptivos hormonais quando indicados pelo ginecologista, calor local, exercício e, como adjuvantes com evidência razoável na dismenorreia primária, acupuntura, eletroacupuntura e TENS. A causa da dismenorreia secundária é tratada pelo ginecologista.
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O que é dismenorreia e por que ela dói

Ilustração editorial de uma mulher encolhida de lado com a mão sobre o baixo-ventre, onde um calor em terracota sugere a cólica menstrual.
A cólica menstrual nasce das contrações do útero; quando é intensa, merece avaliação.

Dismenorreia é o termo médico para a cólica menstrual: a dor em cólica no baixo ventre, na linha média, que aparece pouco antes ou no início da menstruação e pode irradiar para a região lombar e para a face interna das coxas. É uma das queixas ginecológicas mais comuns na idade reprodutiva e uma causa frequente de absenteísmo escolar e laboral.

A dor nasce no próprio músculo do útero, o miométrio. Ao final do ciclo, a queda da progesterona desestabiliza o endométrio e dispara, na camada que descama, uma cascata inflamatória: a enzima ciclo-oxigenase (sobretudo a isoforma COX-2) converte ácido araquidônico em prostaglandinas, com destaque para a PGF2-alfa, e em leucotrienos. A PGF2-alfa é um potente uterotônico: ela aumenta o tônus basal do útero e gera contrações de grande amplitude, descoordenadas e frequentes, em que a pressão intrauterina pode ultrapassar 150 a 200 mmHg nos picos. Essas contrações comprimem os vasos da parede uterina e reduzem o fluxo de sangue, criando um quadro de isquemia e hipóxia transitórias do miométrio, semelhante, em pequena escala, a uma angina.

O acúmulo de metabólitos anaeróbios e a própria liberação de prostaglandinas e leucotrienos sensibilizam as terminações nervosas locais, as fibras aferentes do tipo C, que conduzem a informação dolorosa. A vasopressina contribui ao reforçar a vasoconstrição. Quanto maior a produção de prostaglandinas na descamação endometrial, mais intensa tende a ser a dor, o que ajuda a explicar por que algumas pessoas têm cólicas leves e outras, incapacitantes.

A dor do útero é uma dor visceral referida, e isso explica seu padrão. As aferências do corpo uterino entram na medula pelos segmentos torácicos baixos e lombares altos (T10 a L1), enquanto as do colo e da porção inferior chegam por raízes sacrais (S2 a S4). Por convergência desses sinais com aferências da pele e dos músculos nos mesmos níveis medulares, o cérebro projeta a dor para o baixo ventre, a região lombar baixa e a parte interna das coxas, mesmo que a origem seja o útero. Por isso a cólica que parece descer para a perna costuma ser referência visceral, e não um problema do nervo ciático.

É importante separar a dismenorreia de outras dores que cercam o ciclo. A cólica que aparece dias antes da menstruação, acompanhada de irritabilidade, inchaço e alterações de humor, pode fazer parte da tensão pré-menstrual, um quadro próprio. A dor intestinal em cólica, que melhora ao evacuar e segue o hábito intestinal, costuma ter origem digestiva, e não uterina. Reconhecer o padrão temporal, quando a dor começa em relação ao fluxo, quanto dura e o que a acompanha, é o primeiro passo para entender a causa.

PGF2-α
Prostaglandina que mais contrai o útero
150 a 200 mmHg
Pico de pressão intrauterina na cólica
T10 a L1
Raízes que referem a dor uterina
1 a 3 dias
Duração típica da cólica primária
Pérola clínica

Na prática, a pergunta que mais orienta o diagnóstico é simples: a cólica sempre foi assim, desde os primeiros ciclos ovulatórios na adolescência, ou mudou de padrão depois de anos de ciclos toleráveis? A dismenorreia primária tende a ser estável ou a melhorar com o tempo; cólica que piora de forma progressiva, dura mais dias ou passa a aparecer fora da menstruação levanta a suspeita de causa secundária.

Dismenorreia primária x secundária

A divisão entre dismenorreia primária e secundária é a decisão clínica mais importante diante de uma cólica menstrual, porque define o caminho do tratamento. A primária é a cólica em si, sem doença por trás; a secundária é um sintoma de outra condição da pelve, que precisa ser identificada e tratada, em geral por um ginecologista.

Dismenorreia primária

É a forma mais comum, sobretudo em adolescentes e mulheres jovens. Não há doença pélvica: a dor decorre do excesso de prostaglandinas endometriais e da hipercontratilidade uterina que ele provoca. O início é característico, de 6 a 12 meses após a menarca, quando os ciclos passam a ser ovulatórios, pois é a queda da progesterona ao final de um ciclo ovulatório que dispara a síntese de prostaglandinas. A dor surge horas antes ou junto com o início do sangramento, é mais intensa nas primeiras 24 a 72 horas e cede à medida que o fluxo diminui.

Costuma vir acompanhada de náusea, diarreia, cefaleia e mal-estar, sintomas explicados pela ação sistêmica das mesmas prostaglandinas. Como não há lesão estrutural, o tratamento mira o mecanismo da dor, e os anti-inflamatórios, que reduzem a produção de prostaglandinas, são a primeira linha.

Dismenorreia secundária

É a cólica causada por uma condição ginecológica identificável. Aqui a dor não é a doença, e sim a sua manifestação, e tratar apenas a cólica sem investigar a origem pode atrasar um diagnóstico relevante. A marca clínica é a mudança de padrão: dor que surge ou piora após os 25 anos, que dura além do período menstrual, que responde mal aos anti-inflamatórios ou que vem acompanhada de outros sintomas. As causas mais frequentes têm pistas próprias:

  • Endometriose. É a causa secundária mais comum. Tecido semelhante ao endométrio se implanta fora do útero (ovários, peritônio, ligamentos uterossacros, septo retovaginal) e responde ao ciclo hormonal com inflamação e dor. Tende a cursar com dor progressiva, dor profunda na relação sexual (dispareunia), dor ao evacuar ou urinar no período (disquezia e disúria cíclicas) e, por vezes, infertilidade.
  • Adenomiose. Endométrio infiltrado na parede muscular do útero. Provoca cólicas intensas, útero aumentado e doloroso e fluxo menstrual abundante e prolongado (menorragia). É mais frequente após os 35 a 40 anos e em quem já teve filhos.
  • Miomas e pólipos. Os miomas, sobretudo os submucosos, e os pólipos endometriais distorcem a cavidade uterina, aumentam o sangramento e podem provocar cólicas e dor por compressão.
  • Doença inflamatória pélvica (DIP). Infecção do trato genital superior, em geral por agentes sexualmente transmissíveis. Cursa com dor pélvica que pode não respeitar o ciclo, corrimento, febre e dor à mobilização do colo; é uma emergência relativa, pois exige antibiótico e tem risco de sequelas como infertilidade.
  • Estenose cervical. Estreitamento do canal do colo do útero que dificulta a saída do fluxo, eleva a pressão intrauterina e pode levar ao acúmulo de sangue (hematometra), com cólica intensa.
  • Dispositivo intrauterino (DIU). O DIU de cobre pode aumentar as cólicas e o fluxo nos primeiros meses, por um efeito inflamatório local mediado por prostaglandinas; já o DIU com levonorgestrel costuma reduzir a dor e o sangramento.

Diante dessas pistas, o encaminhamento ao ginecologista é a conduta correta. O manejo da dor pode caminhar em paralelo, mas não substitui a investigação da causa.

Diferenciando dismenorreia primária e secundária
AspectoPrimáriaSecundária
CausaExcesso de prostaglandinas (PGF2-alfa), sem doença pélvicaDoença ginecológica (endometriose, adenomiose, mioma, DIP, estenose cervical)
Quando começaDe 6 a 12 meses após a menarca, com os ciclos ovulatóriosEm geral mais tarde, após anos de ciclos toleráveis
EvoluçãoEstável ou melhora ao longo dos anosCostuma piorar de forma progressiva
Duração da dorDe 1 a 3 dias, junto com o fluxoPode durar mais e surgir fora da menstruação
Outros sintomasNáusea, diarreia, cefaleia, dor lombar e nas coxas no períodoDispareunia, sangramento anormal, alteração intestinal ou urinária cíclica, infertilidade
Resposta aos anti-inflamatóriosCostuma ser boaFrequentemente parcial ou ausente
CondutaManejo da dor como primeira linhaInvestigar e tratar a causa com o ginecologista
Sugere primária

Sempre foi assim

Cólica que existe desde os primeiros ciclos ovulatórios na adolescência, com o mesmo padrão a cada mês, restrita aos dias de fluxo e que alivia com anti-inflamatório.

Sugere secundária

Mudou de padrão

Cólica que apareceu ou piorou depois de anos, que dura mais dias, que dói na relação sexual ou ao evacuar, ou que não cede aos remédios habituais.

Mito

“Cólica forte é normal, é só apertar os dentes e aguentar todo mês.”

Fato

Cólica que impede a rotina, que piora com o tempo ou que não responde aos anti-inflamatórios não é algo a apenas suportar. Pode ser dismenorreia secundária, frequentemente endometriose, e merece investigação ginecológica.

Sintomas e quando investigar

A cólica menstrual típica é uma dor em cólica ou aperto no baixo ventre, na linha média, contínua ou em ondas, que acompanha o ritmo das contrações uterinas. Com frequência ela irradia para a região lombar e para a face interna das coxas, seguindo o padrão de dor visceral referida descrito acima. Muitas pessoas relatam ainda sintomas associados que acompanham o pico de prostaglandinas.

  • Dor no baixo ventre. Cólica ou aperto na linha média, mais forte nas primeiras horas e nos primeiros dias do fluxo.
  • Irradiação. Pode descer para a região lombar e para as coxas, o que explica a dor que parece ir para a perna; trata-se de referência das raízes T10 a L1 e S2 a S4.
  • Sintomas digestivos. Náusea, vômito, diarreia ou cólicas intestinais, pela ação das prostaglandinas na musculatura lisa do intestino.
  • Mal-estar geral. Dor de cabeça, cansaço e sensação de moleza são comuns no período.

O ponto prático é distinguir a cólica menstrual de outras dores cíclicas. A dor que aparece dias antes da menstruação, junto de inchaço, sensibilidade nas mamas e oscilação de humor, costuma fazer parte da tensão pré-menstrual; tratamos esse quadro na página de TPM (tensão pré-menstrual). Já a cólica intestinal, que vem com distensão e melhora ao evacuar, segue a lógica do intestino. Caracterizar quando a dor começa em relação ao fluxo, quanto dura e o que a acompanha é o que permite separar esses quadros.

Como é a investigação

Na dismenorreia primária típica, com história clássica e exame normal, o diagnóstico é clínico e não exige exame de imagem; muitas vezes inicia-se o tratamento e a boa resposta confirma a hipótese. A investigação se justifica quando o padrão foge do esperado: dor que começou ou piorou após anos de ciclos toleráveis, que dura mais do que o período ou aparece fora dele, que não responde aos anti-inflamatórios em dose adequada, ou que vem com dispareunia, sangramento anormal ou dificuldade para engravidar. Nesses casos, a avaliação ginecológica costuma incluir:

  • Exame ginecológico (toque bimanual e exame especular). Procura útero aumentado e doloroso (sugere adenomiose ou miomas), nódulos e dor nos ligamentos uterossacros (sugerem endometriose profunda), dor intensa à mobilização do colo e corrimento (sugerem doença inflamatória pélvica).
  • Ultrassonografia pélvica ou transvaginal. É o primeiro exame de imagem. Identifica endometriomas ovarianos (os chamados cistos de chocolate), miomas, pólipos e sinais de adenomiose, como útero globoso, cistos no miométrio e espessamento da zona juncional. Implantes peritoneais superficiais da endometriose, porém, costumam não aparecer no ultrassom.
  • Ressonância magnética da pelve. Reservada para mapear endometriose profunda infiltrativa, caracterizar adenomiose e planejar cirurgia, quando o ultrassom é insuficiente.
  • Rastreio de infecção. Diante de suspeita de DIP, coleta de material cervical para pesquisa de clamídia e gonococo e avaliação dirigida, pois a infecção exige antibiótico precoce.
  • Videolaparoscopia. Continua sendo o exame de referência para confirmar e estadiar a endometriose peritoneal e permite, no mesmo tempo, o tratamento das lesões. É indicada pelo ginecologista em casos selecionados, sobretudo quando a dor é refratária ou há infertilidade.

Vale uma ressalva sobre exames de sangue: o marcador CA-125 pode estar elevado na endometriose, mas é pouco sensível e pouco específico, de modo que um resultado normal não afasta a doença e ele não serve como rastreio isolado.

Você se identifica? · sinais de que vale investigar
  • Minhas cólicas pioraram nos últimos anos, não são como sempre foram.
  • A dor dura mais do que os dias de menstruação ou aparece fora dela.
  • Sinto dor profunda durante ou após a relação sexual.
  • Sinto dor ao evacuar ou ao urinar no período menstrual.
  • Os anti-inflamatórios quase não fazem efeito na minha cólica.
  • Tenho sangramento muito intenso ou irregular.

Identificar-se com vários itens sugere a necessidade de avaliação ginecológica para investigar uma causa secundária.

Sinais de causa secundária e quando encaminhar

Alguns achados deslocam a atenção da simples cólica primária para a possibilidade de uma doença pélvica e indicam avaliação com o ginecologista. Outros, mais agudos, pedem atendimento sem demora:

Sinais de alerta · procure avaliação

Indicam investigar uma causa secundária ou buscar atendimento

  • Cólicas que começaram ou pioraram de forma progressiva, em especial depois dos 25 anos.
  • Dor que dura mais do que o período menstrual ou que ocorre fora da menstruação.
  • Dor profunda durante ou após a relação sexual, ou dor cíclica ao evacuar ou urinar.
  • Sangramento menstrual muito intenso, prolongado ou fora de época.
  • Cólica que não melhora com anti-inflamatórios em dose adequada.
  • Febre, corrimento com odor ou dor à mobilização do colo, que sugerem infecção pélvica e pedem avaliação sem demora.
  • Dor pélvica aguda e intensa de início súbito, que pode indicar complicação (como torção ou rotura de cisto) e exige pronto atendimento.
  • Dificuldade para engravidar associada à dor menstrual.

Cada sinal aponta para uma direção. Dor progressiva com dispareunia e infertilidade levanta a hipótese de endometriose; fluxo intenso com útero aumentado e doloroso sugere adenomiose ou miomas; febre, corrimento e dor à mobilização do colo apontam para doença inflamatória pélvica, que é uma infecção e exige antibiótico precoce; cólica muito intensa com pouco fluxo, sobretudo após procedimento no colo, lembra estenose cervical. Por isso a presença desses achados justifica o encaminhamento ao ginecologista, que dispõe das ferramentas para confirmar a causa e definir o tratamento.

Pérola clínica

A endometriose convive com um atraso histórico de diagnóstico, com frequência de muitos anos, porque a cólica intensa é normalizada e o ultrassom pode ser normal nas formas superficiais. Mulheres com dor menstrual incapacitante, dispareunia profunda ou dificuldade para engravidar merecem avaliação ginecológica dirigida; tratar o ciclo apenas com analgesia repetida, sem essa investigação, é o que alimenta a demora no diagnóstico.

Assista: Entrevista Dr. Marcus Yu Bin Pai sobre dismenorréia – Storia.me

Como tratar a dor da dismenorreia na clínica

O tratamento da dor da cólica menstrual é multimodal e individualizado, e na clínica de dor o foco é o manejo da dor: reduzir a intensidade, devolver a capacidade de manter a rotina nos dias de fluxo e diminuir a dependência de medicação. Quando há suspeita ou diagnóstico de dismenorreia secundária, o plano caminha junto com o ginecologista, que trata a doença de base. Os recursos conduzidos dentro da clínica para controlar a dor incluem as medidas de base, a abordagem miofascial e as técnicas de neuromodulação.

A medicação (anti-inflamatórios como primeira linha e contraceptivos hormonais pela ginecologia) está detalhada no tratamento medicamentoso, e a reabilitação ativa, na fisioterapia, RPG e Pilates. Para um panorama mais amplo das classes de analgésicos e seus cuidados, consulte o guia de remédios para dor.

Primeira linha farmacológica

Anti-inflamatórios iniciados no começo da dor, por inibirem a síntese de prostaglandinas. Sempre com indicação médica.

Opção hormonal

Contraceptivos hormonais, prescritos pelo ginecologista, úteis quando os anti-inflamatórios não bastam ou quando se deseja contracepção.

Medidas de base

Calor local e exercício regular, seguros, combináveis e úteis desde o primeiro ciclo de dor.

Adjuvantes em clínica

Acupuntura e eletroacupuntura, TENS e abordagem miofascial quando há esse componente, somando ao plano.

Tratar a causa

Na dismenorreia secundária, o controle definitivo depende do tratamento da doença de base pelo ginecologista.

A primeira linha farmacológica da dismenorreia primária são os anti-inflamatórios, que inibem a síntese de prostaglandinas, e a opção hormonal é conduzida pelo ginecologista; ambas estão detalhadas, com mecanismo, evidência e cuidados, na seção de tratamento medicamentoso. A seguir, os recursos não medicamentosos conduzidos na clínica.

Calor local

O que é: aplicação de calor sobre o baixo ventre com bolsa térmica ou compressa, em geral a temperaturas em torno de 39 a 40 graus.

Mecanismo: o calor promove relaxamento da musculatura uterina e da parede abdominal e melhora o fluxo sanguíneo local, o que reduz a isquemia responsável pela dor; soma-se um efeito de modulação da dor pela própria estimulação térmica, que compete com o sinal doloroso na medula.

Evidência: ensaios sugerem que o calor tópico contínuo pode ter eficácia comparável à de anti-inflamatórios comuns na cólica menstrual, com a vantagem de poder ser combinado a eles e de ter início de alívio rápido.

O que esperar e limitações: alívio durante a aplicação, útil como complemento das demais medidas. É seguro para uso frequente, com cuidado para evitar queimaduras em contato prolongado direto com a pele.

Exercício físico

O que é: atividade física regular, sobretudo exercícios aeróbicos e de alongamento, com papel preventivo e de alívio na dismenorreia primária.

Mecanismo: combina a liberação de endorfinas (opioides endógenos que modulam a dor), a melhora da circulação pélvica e a redução do estresse e da tensão muscular, fatores que reduzem a percepção da dor ao longo dos ciclos.

Evidência: revisões apontam que o exercício praticado com regularidade pode reduzir a intensidade das cólicas na dismenorreia primária, embora a qualidade dos estudos seja variável.

O que esperar e limitações: é uma medida de médio prazo, mantida ao longo das semanas e dos ciclos, e não um alívio imediato na crise. Integra a base do tratamento por ser segura e por trazer outros benefícios à saúde.

Acupuntura e eletroacupuntura

O que é: inserção de agulhas finas em pontos definidos por médico acupunturiatra; na eletroacupuntura, uma corrente elétrica de baixa intensidade conecta as agulhas.

Mecanismo (calibrado): a analgesia é explicada pela modulação da dor no corno dorsal da medula (a teoria da comporta) e pela ativação de vias inibitórias descendentes, com participação de opioides endógenos; correntes de baixa frequência tendem a recrutar mais esses sistemas opioides. Postula-se ainda um efeito de relaxamento muscular e de modulação autonômica que pode reduzir a contração uterina dolorosa, mecanismo plausível e ainda em investigação. A descrição tradicional por meridianos é o quadro de origem da técnica; a correspondência com a neurofisiologia contemporânea é objeto de estudo.

Evidência: há evidência razoável, ainda que de qualidade variável, de que a acupuntura e a eletroacupuntura podem reduzir a dor da dismenorreia primária; revisões sistemáticas apontam benefício sobre a intensidade da cólica, e parte dos estudos sugere que a eletroacupuntura de baixa frequência aplicada antes e durante o fluxo tende a render efeito mais consistente. A leitura, porém, exige cautela: muitos ensaios são pequenos, comparam a acupuntura a controles diferentes e convivem com um efeito placebo relevante na dor, de modo que o benefício real é provável, mas de magnitude incerta. Por isso a tratamos como adjuvante de evidência intermediária, e não como terapia central da cólica.

O que esperar: por ser uma dor cíclica, a acupuntura na dismenorreia se organiza em torno do calendário menstrual. O esquema mais usado começa nas duas semanas que antecedem a menstruação prevista, com 1 a 2 sessões por semana, intensificando-se nos dias próximos ao fluxo, e o ciclo se estende por cerca de três meses (três ciclos menstruais) antes da reavaliação, porque o efeito sobre a cólica se constrói ao longo de mais de um período, não de uma sessão isolada. A resposta é julgada comparando a intensidade da cólica e o consumo de anti-inflamatórios de um ciclo para o outro.

Indicações e limitações: é um recurso adjuvante, parte de um plano multimodal, e não substitui a investigação ginecológica quando há suspeita de causa secundária; na dismenorreia secundária por endometriose ou adenomiose, em particular, a acupuntura pode atenuar a dor, porém não trata a doença de base nem dispensa o seguimento com o ginecologista. Efeitos adversos são raros e leves (desconforto ou pequeno hematoma no local), com cautela em quem usa anticoagulantes. Aprofundamos esse tema na página de acupuntura e dismenorreia (cólica menstrual).

TENS, estimulação elétrica transcutânea

O que é: aparelho que aplica uma corrente elétrica suave por eletrodos colados sobre a pele do baixo ventre ou da região lombar.

Mecanismo: o TENS de alta frequência baseia-se na teoria da comporta. O estímulo elétrico ativa fibras nervosas de grande calibre (A-beta) que, na medula, reduzem a transmissão do sinal de dor conduzido pelas fibras finas, com participação de sistemas inibitórios; é uma forma de neuromodulação não invasiva.

Evidência: dados disponíveis sugerem que o TENS de alta frequência pode aliviar a dor da dismenorreia primária, sendo uma opção não farmacológica para quem busca reduzir o uso de remédios ou os combina; a evidência ainda é heterogênea.

O que esperar e limitações: alívio durante e logo após o uso, sem os efeitos sistêmicos dos medicamentos. É uma camada a mais no controle da dor, aplicada conforme orientação; não deve ser usado sobre lesões de pele e exige cautela em portadores de marcapasso.

Agulhamento seco e abordagem miofascial

O que é: parte das mulheres com dor pélvica cíclica desenvolve, com o tempo, um componente miofascial na parede abdominal e no assoalho pélvico, pontos-gatilho e bandas de músculo tenso que passam a contribuir para a dor e a mantê-la mesmo entre os ciclos. O agulhamento seco consiste em inserir uma agulha fina diretamente no ponto-gatilho, sem injetar substância.

Mecanismo: ao atravessar a banda tensa no reto abdominal, no oblíquo ou na musculatura do assoalho pélvico, a agulha desencadeia uma contração breve e involuntária da fibra (a resposta de contração local), que ajuda a “soltar” o ponto-gatilho, reduz a atividade elétrica anormal da placa motora e dispersa a concentração local de substâncias que sensibilizam a dor. Como esses músculos compartilham os mesmos segmentos medulares (T10 a L1) por onde a dor uterina é referida, desativar o componente miofascial da parede pode baixar a soma de estímulos dolorosos que a paciente sente no período. Quando o ponto resiste à agulha seca, a infiltração de ponto-gatilho com anestésico local bloqueia a aferência nociceptiva e interrompe o ciclo dor-espasmo-dor.

O que esperar: quando o alvo é a dor pélvica miofascial que persiste fora da menstruação, a sessão costuma reduzir a sensibilidade da parede já nos dias seguintes, com um desconforto leve no local que dura um ou dois dias; o ganho sobre a cólica em si é indireto e gradual, motivo pelo qual o agulhamento entra como parte de um plano e é encadeado com a reabilitação do assoalho pélvico, que sustenta o resultado entre os ciclos. Ele alivia o componente muscular, não a contração uterina que origina a cólica.

Indicações e limitações: é especialmente útil quando há dor pélvica miofascial que persiste além da cólica, tema detalhado em dor pélvica crônica: o que é, causas e como tratar. Não trata a causa uterina ou ginecológica da dor; exige cautela em anticoagulados.

Tratamento da causa secundária

O que é: quando a dismenorreia é secundária, o controle sustentado da dor depende de tratar a doença de base, conduzida pelo ginecologista, enquanto o manejo da dor segue em paralelo.

Como se organiza: na endometriose e na adenomiose, a supressão hormonal (contraceptivos combinados em regime contínuo, progestágenos ou DIU com levonorgestrel) costuma ser a base, com a cirurgia, muitas vezes por videolaparoscopia, reservada a casos selecionados ou refratários. Nos miomas e pólipos sintomáticos, o tratamento pode ser medicamentoso ou cirúrgico, conforme tamanho, localização e desejo reprodutivo. A doença inflamatória pélvica exige antibiótico precoce. A estenose cervical pode demandar dilatação do canal.

Por que importa: tratar apenas a dor sem investigar e abordar a causa pode atrasar diagnósticos relevantes, como a endometriose, e perpetuar o sofrimento. Por isso o encaminhamento e o cuidado compartilhado são parte do tratamento.

Opções para o manejo da dor · visão geral ordenada por evidência
ModalidadeComo ageQuando considerar
Anti-inflamatóriosInibem a COX e a síntese de prostaglandinas que contraem o úteroPrimeira linha na dismenorreia primária, com indicação médica
Contraceptivos hormonaisSuprimem a ovulação e reduzem o endométrio, baixando o substrato de prostaglandinasOpção do ginecologista; útil quando anti-inflamatórios não bastam ou na causa secundária
Calor localRelaxa a musculatura, melhora o fluxo e modula a dorMedida simples e segura, combinável aos demais recursos
ExercícioEndorfinas, circulação pélvica e manejo do estressePrevenção e alívio ao longo dos ciclos
Acupuntura / eletroacupunturaNeuromodulação da dor e relaxamento muscularAdjuvante com evidência razoável na cólica primária
TENSEstímulo elétrico que reduz a transmissão da dor (teoria da comporta)Opção não farmacológica, isolada ou combinada
Agulhamento seco / miofascialDesativa pontos-gatilho da parede abdominal e do assoalhoQuando há componente miofascial associado
Primeiro ciclo

Primeira linha e base

Anti-inflamatório iniciado no começo da dor, conforme orientação, com calor local e ajuste da rotina nos dias de fluxo.

Ciclos seguintes

Acrescentar camadas

Exercício regular, opção hormonal pelo ginecologista quando indicada, e adjuvantes como acupuntura, eletroacupuntura ou TENS quando a dor não é bem controlada.

Se a dor persiste

Reavaliar e encaminhar

Dor que não cede ou que muda de padrão pede avaliação ginecológica para investigar e tratar uma causa secundária.

Na dismenorreia a resposta tem uma vantagem prática: o ciclo é o próprio cronômetro. Em vez de avaliar de semana em semana, comparamos um período menstrual com o seguinte, registrando a intensidade da pior cólica numa escala de 0 a 10, quantos dias ela limitou a rotina e quantos comprimidos de anti-inflamatório foram precisos. Se, depois de dois ou três ciclos, a dor não cede e a necessidade de remédio não diminui, isso é um sinal para mudar a conduta e, sobretudo, para reabrir a pergunta sobre uma causa secundária, e não para repetir o mesmo esquema por inércia.

O objetivo é reduzir a cólica a um nível que não atrapalhe a vida e baixar o consumo de medicação; quando há doença ginecológica por trás, o controle duradouro depende de tratá-la com o ginecologista. Por se tratar de uma dor cíclica e de causas variadas, esse plano é individualizado a cada paciente.

Da prática clínica · observações para discussão em consulta

A queixa que mais se repete não é a cólica em si, e sim o tempo que a pessoa passou achando que dor menstrual incapacitante era apenas o seu normal: muitas chegam depois de anos faltando ao trabalho ou à escola todo mês, com a impressão de que reclamar seria exagero. Dor que obriga a deitar, faz vomitar ou não cede com anti-inflamatório bem tomado foge da cólica comum e merece ser dita ao médico por inteiro.

Três pontos costumam fazer diferença na prática. Primeiro, a janela do anti-inflamatório: a mesma dose que parece fraca quando tomada no auge da cólica costuma funcionar bem quando é iniciada na véspera ou nas primeiras horas do fluxo, antes do pico de prostaglandinas. Segundo, os sinais que orientam a investigar endometriose ou adenomiose, e que com frequência não são mencionados de forma espontânea: dor profunda na relação, dor cíclica para evacuar ou urinar, fluxo muito intenso, cólica que piora a cada ano. Terceiro, o lugar da acupuntura e do agulhamento seco: eles ajudam mais quando há um componente muscular na parede abdominal e no assoalho pélvico que persiste fora da menstruação, e menos na cólica primária pura.

O que mais surpreende quem chega é descobrir que a clínica de dor não substitui o ginecologista, e sim trabalha junto: cuidamos do manejo da dor enquanto a investigação e o tratamento da causa seguem com a ginecologia. Quando isso fica claro, a expectativa se ajusta e o cuidado anda melhor.

Cólica incapacitante: investigar antes de subir a dose

Cólica realmente incapacitante, que não responde ao anti-inflamatório bem indicado, é com mais frequência um sinal de dismenorreia secundária, sobretudo endometriose, do que um caso de dor primária que precisa de uma dose maior. Subir a potência do remédio sem investigar pode aliviar o mês e, ao mesmo tempo, mascarar uma doença tratável e adiar o diagnóstico por anos.

A inversão prática é simples: diante de dor que limita a vida, a pergunta mais útil deixa de ser “qual remédio mais forte tomar” e passa a ser “o que está causando esta dor”. Em dor leve a moderada com padrão típico, controlar a cólica resolve. Em dor intensa, progressiva ou com sinais de alerta, a prioridade é a avaliação ginecológica para procurar uma causa, com o manejo da dor caminhando em paralelo. Esse é o motivo pelo qual, neste texto, a investigação vem antes do arsenal de tratamento.

Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia

Boa parte das mulheres com dor pélvica cíclica desenvolve, com o tempo, um componente miofascial na parede abdominal e no assoalho pélvico que se soma à dor uterina e a mantém mesmo entre os ciclos. A reabilitação ativa — fisioterapia do assoalho pélvico, RPG, Pilates clínico e terapia manual — não trata a causa uterina ou ginecológica da cólica, mas reduz o componente musculoesquelético da dor, melhora a função e devolve controle e tolerância ao movimento. São abordagens conduzidas dentro da clínica, sempre individuais, um paciente por sala.

A lógica é comum a todas. A dor pélvica que persiste fora da menstruação raramente vem só do útero: a musculatura do assoalho pélvico e da parede abdominal pode entrar em hipertonia, gerar pontos-gatilho e perpetuar um ciclo de dor, espasmo e mais dor. O objetivo da reabilitação é quebrar esse ciclo, devolver coordenação e relaxamento à musculatura pélvica e dessensibilizar o movimento, com progressão graduada. Por isso a regularidade vale mais do que a intensidade, e o ganho costuma ser cumulativo ao longo de semanas.

Fisioterapia do assoalho pélvico

Reabilitação especializada da musculatura do assoalho pélvico: na dor cíclica costuma haver hipertonia (excesso de tensão), e não fraqueza. O trabalho mira relaxamento e coordenação, com liberação miofascial interna e externa, biofeedback e treino respiratório, reduzindo o espasmo que amplifica a dor. Indicada quando a dor persiste fora do período, há dispareunia com componente muscular ou hipertonia identificada na avaliação. Não trata a causa uterina ou ginecológica e exige adesão para sustentar o ganho.

ModeradaComponente miofascial

Reeducação postural global (RPG)

Método que trabalha o corpo por cadeias musculares, com posturas de alongamento ativo mantidas e progressivas (contração isométrica de caráter excêntrico). Reduz encurtamentos posturais, normaliza o tônus e melhora a consciência corporal, aliviando a sobrecarga lombopélvica e a tensão miofascial associada à cólica. Útil para quem tem muita rigidez e dor lombopélvica no período. Base específica em dismenorreia limitada; posturas mantidas em excesso podem incomodar no início, ajustando-se a dose.

LimitadaRigidez · postura

Pilates clínico

Exercício terapêutico de baixo impacto centrado em controle motor e estabilização do core, adaptado por fisioterapeuta. Trabalha músculos profundos do tronco, coordenação entre respiração e movimento e estabilização de coluna e pelve, reduzindo a sobrecarga sobre estruturas sensibilizadas e favorecendo o relaxamento do assoalho. Revisões em dismenorreia apontam que o exercício, incluindo o Pilates, pode reduzir a intensidade das cólicas, com efeito modesto e dependente de adesão. Cargas avançadas cedo demais provocam piora e abandono.

ModeradaAdesão dependente

Cinesioterapia e terapia manual

Reabilitação ativa (exercícios de força leve, mobilidade, alongamento e condicionamento) somada a técnicas manuais como liberação miofascial e mobilização de tecidos moles. O exercício ativa as vias inibitórias descendentes da dor e melhora a circulação pélvica; a terapia manual dá alívio local do componente miofascial, abrindo janela para avançar a reabilitação. O exercício terapêutico é a intervenção não farmacológica mais bem sustentada na dor menstrual; a terapia manual tem benefício de curto prazo e modesto, sobretudo combinada com exercício. Técnicas puramente passivas não sustentam o ganho.

ModeradaExercício + manual

Comparando a sustentação de evidência das abordagens de reabilitação na dor menstrual:

Exercício terapêutico
Moderada
Fisioterapia do assoalho pélvico
Moderada
Pilates clínico
Moderada
Terapia manual isolada
Limitada
RPG na dismenorreia
Limitada

Fisioterapia do assoalho pélvico

O que é
Reabilitação especializada da musculatura do assoalho pélvico, conduzida por fisioterapeuta, com avaliação do tônus e da coordenação e técnicas de consciência, relaxamento e treino muscular dirigido.
Mecanismo
Na dor pélvica cíclica é frequente a hipertonia (excesso de tensão) do assoalho pélvico, e não a fraqueza. O trabalho mira o relaxamento e a coordenação, com liberação miofascial interna e externa, biofeedback e treino respiratório, reduzindo o espasmo que amplifica a dor.
Evidência
Consistente na dor pélvica crônica de componente miofascial e na dor associada a endometriose com hipertonia muscular, com benefício sobre dor e função. Na cólica primária pura, sem componente miofascial, o papel é menor.
O que esperar
Ciclos de sessões individuais semanais, com reavaliação periódica e exercícios para casa; a resposta é progressiva.
Indicações
Dor pélvica que persiste fora do período, dispareunia com componente muscular e hipertonia do assoalho identificada na avaliação.
Limitações
Não trata a causa uterina ou ginecológica da dor e não substitui a investigação quando há suspeita de causa secundária; exige adesão para sustentar o ganho.

O fio condutor é claro: quando há componente musculoesquelético na dor pélvica, o movimento supervisionado e graduado é tratamento, e a melhor reabilitação é aquela que a paciente consegue manter. A escolha entre fisioterapia do assoalho pélvico, RPG, Pilates ou cinesioterapia depende do perfil, da preferência e da tolerância de cada pessoa, e muitas vezes se combinam ao longo do tempo. Detalhamos o componente miofascial na página de dor pélvica crônica.

Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica

O quadro completo separa o que a clínica de dor maneja do que, em casos selecionados, é conduzido por outros especialistas, sobretudo o ginecologista. Isso evita procedimentos desnecessários e direciona a paciente ao cuidado certo.

Conservador · 1ª escolha

Manejo da dor e tratamento clínico

  • Na dismenorreia primária não há cirurgia a indicar: a dor vem do excesso de prostaglandinas e da hipercontratilidade uterina, não de lesão estrutural.
  • Não há disco, nervo, cisto ou tecido a operar; o tratamento é farmacológico e não farmacológico.
  • Na causa secundária, a base costuma ser clínica: supressão hormonal (contraceptivos combinados em regime contínuo, progestágenos isolados ou DIU com levonorgestrel) controla dor e progressão na maioria dos casos.
  • Na clínica de dor, o papel é o manejo da dor em paralelo e o encaminhamento no momento certo.
VS

Cirúrgico · exceção (ginecologia)

Reservado à causa secundária

  • Pertence à dismenorreia secundária e é conduzido pelo ginecologista, não em nossa clínica.
  • Entra em situações específicas: dor que não responde ao tratamento clínico bem conduzido, doença que progride, infertilidade associada ou lesões com indicação própria.
  • Procedimentos antigos para a cólica, como a neurectomia pré-sacral ou a ablação dos nervos uterossacros, não se sustentam na evidência atual para a dismenorreia primária e não fazem parte da prática recomendada.
  • Estas opções não são realizadas em nossa clínica.

Quando a dismenorreia é secundária, as condutas e procedimentos da ginecologia abaixo completam o mapa de cuidado. A cirurgia entra apenas em situações selecionadas, e a base do tratamento costuma ser clínica antes dela.

Causa secundária: quando a cirurgia ou o cuidado especializado é considerado (ginecologia)
Quando considerarProcedimento / condutaO que esperar
Endometriose com dor refratária ao tratamento clínico, endometrioma ou infertilidadeVideolaparoscopia para excisão ou cauterização das lesões, com diagnóstico e tratamento no mesmo tempoAlívio da dor em parte das pacientes; a doença pode recidivar, e a supressão hormonal costuma seguir após a cirurgia
Miomas ou pólipos sintomáticos que distorcem a cavidade, aumentam o sangramento e provocam dorMiomectomia ou polipectomia (por histeroscopia ou laparoscopia, conforme tamanho e localização), preservando o úteroRedução do sangramento e da dor; conduta orientada pelo desejo reprodutivo
Adenomiose ou miomas com prole constituída e dor ou sangramento incapacitantes, sem resposta ao tratamento conservadorHisterectomia, considerada como último recurso quando outras opções falhamResolução definitiva da dor de origem uterina; é cirurgia maior, reservada a casos selecionados
Estenose cervical com acúmulo de fluxo e cólica intensaDilatação do canal cervicalAlívio ao restabelecer a saída do fluxo menstrual
Doença inflamatória pélvicaAntibioticoterapia precoce pela ginecologia (conduta clínica, não cirúrgica, salvo complicação como abscesso)Controle da infecção e prevenção de sequelas como infertilidade

Antes da cirurgia, a base do tratamento da causa secundária costuma ser clínica e também conduzida pela ginecologia: na endometriose e na adenomiose, a supressão hormonal controla a dor e a progressão na maioria dos casos, e a cirurgia fica reservada à falha desse tratamento, à doença avançada ou à infertilidade. O nosso papel, na clínica de dor, é o manejo da dor em paralelo e o encaminhamento no momento certo; o diagnóstico e o tratamento definitivo da doença ginecológica, clínico ou cirúrgico, são do ginecologista.

Pérola clínica

A decisão entre tratamento clínico e cirúrgico na endometriose é individualizada e depende de dor, desejo de engravidar, extensão da doença e resposta ao tratamento hormonal. A cirurgia pode aliviar a dor, mas não é garantia de cura e a doença pode recidivar, razão pela qual o controle hormonal costuma continuar depois. Por isso a conduta é compartilhada e cuidadosamente discutida com o ginecologista, sem indicar cirurgia de forma precoce ou automática.

Tratamento medicamentoso

O tratamento medicamentoso é o centro do manejo da dismenorreia primária. Duas classes concentram a evidência: os anti-inflamatórios, primeira linha, e os contraceptivos hormonais, conduzidos pela ginecologia. A seguir, cada classe, com mecanismo, evidência e cuidados.

Classes medicamentosas na dismenorreia
ClassePara quêEvidênciaO que esperar
Anti-inflamatórios
ibuprofeno, naproxeno, ácido mefenâmico, diclofenaco
Primeira linha: inibem a COX e a síntese de prostaglandinas que contraem o úteroForteMaior efeito quando iniciados no começo dos sintomas ou pouco antes do fluxo; mantidos por 1 a 3 dias
Contraceptivos hormonaisSuprimem a ovulação e reduzem o endométrio, baixando o substrato de prostaglandinas; conduta da ginecologiaModeradaAlívio ao longo dos primeiros ciclos; escapes iniciais comuns e que tendem a diminuir
Analgésicos simples
dipirona, paracetamol
Não bloqueiam de forma significativa as prostaglandinas; complemento ou alternativa quando há contraindicação aos anti-inflamatóriosLimitadaEfeito mais modesto que os anti-inflamatórios na cólica
AntiespasmódicosUsados na prática para o desconforto em cólica, isolados ou associadosLimitadaPapel adjuvante; evidência mais limitada
OpioidesSem papel no tratamento de rotina: não tratam o mecanismo da dorNão indicadosRiscos que não compensam; evitar de rotina

Anti-inflamatórios

O que é
Os anti-inflamatórios não esteroides são a primeira linha de tratamento farmacológico da dismenorreia primária. As opções mais usadas incluem o ibuprofeno, o naproxeno, o ácido mefenâmico e o diclofenaco.
Mecanismo
Diferentemente dos analgésicos comuns, que apenas reduzem a percepção da dor, os anti-inflamatórios atacam a raiz do problema: inibem a ciclo-oxigenase (COX-1 e COX-2) e bloqueiam a conversão de ácido araquidônico em prostaglandinas, responsáveis pela hipercontratilidade uterina e pela isquemia. O ácido mefenâmico, da classe dos fenamatos, soma uma ação que também antagoniza prostaglandinas já formadas. Reduzir a PGF2-alfa diminui a amplitude e a frequência das contrações e melhora o fluxo sanguíneo uterino.
Evidência
É uma das mais robustas em dor menstrual. Revisões sistemáticas demonstram, de forma consistente, que os anti-inflamatórios são mais eficazes que o placebo no alívio da dismenorreia primária; nenhum anti-inflamatório se mostrou claramente superior aos demais, o que torna a escolha individualizada.
O que esperar
O efeito é maior quando iniciado logo no começo dos sintomas, ou pouco antes da menstruação prevista em quem tem ciclos regulares, e mantido em horários fixos pelos primeiros 1 a 3 dias. Esperar a cólica chegar ao auge é o erro mais comum, pois é mais eficaz frear a síntese das prostaglandinas do que combater as já produzidas. Costuma-se usar uma dose inicial maior, seguida de doses de manutenção, sempre conforme prescrição.
Indicações
Indicados na dismenorreia primária e úteis também na secundária, em paralelo ao tratamento da causa.
Limitações
Têm contraindicações e riscos gástricos (úlcera, sangramento), renais e cardiovasculares, sobretudo em uso prolongado, doses altas ou comorbidades. Devem ser evitados em úlcera ativa, doença renal significativa ou alergia a anti-inflamatórios, e usados com cautela na asma exacerbada por anti-inflamatórios. A escolha do princípio ativo, a dose e a duração cabem ao médico.

Contraceptivos hormonais

O que é
Métodos hormonais usados para controlar a dor menstrual, incluindo as pílulas combinadas (estrogênio e progestágeno), as pílulas só de progestágeno, o anel, o implante e o DIU com levonorgestrel (DIU hormonal). São prescritos e acompanhados pelo ginecologista.
Mecanismo
Agem em dois eixos. Ao suprimir a ovulação, removem o gatilho hormonal (a queda de progesterona ao final do ciclo ovulatório) que dispara a síntese de prostaglandinas. E, ao reduzir a proliferação do endométrio, deixam menos tecido para descamar e menos substrato para produzir prostaglandinas. O DIU com levonorgestrel atua de forma predominantemente local, atrofiando o endométrio.
Evidência
Reduzem a dor da dismenorreia, com benefício em formulações combinadas e em progestágenos isolados; especialmente úteis em quem também deseja contracepção e quando os anti-inflamatórios não bastam. Em regime contínuo, sem a pausa mensal, costumam reduzir ainda mais a frequência das cólicas.
O que esperar
O alívio se estabelece ao longo dos primeiros ciclos de uso; sangramentos de escape nos primeiros meses são comuns e tendem a diminuir.
Indicações
Papel central quando há suspeita de endometriose ou adenomiose, pois o controle hormonal faz parte do tratamento da própria doença. Indicados por meio do encaminhamento adequado ao ginecologista.
Limitações
São uma conduta do ginecologista, que avalia indicações e contraindicações (como histórico de trombose, certas enxaquecas com aura e tabagismo após os 35 anos, no caso dos combinados) e o método mais adequado.

Analgésicos simples e o que evitar

Os analgésicos comuns, como a dipirona e o paracetamol, têm efeito mais modesto do que os anti-inflamatórios na cólica, porque não bloqueiam de forma significativa a produção de prostaglandinas; podem ajudar quando há contraindicação aos anti-inflamatórios ou como complemento, sempre com orientação. Antiespasmódicos, isolados ou associados, são usados na prática para o desconforto em cólica, com evidência mais limitada. Já os opioides não têm papel no tratamento de rotina da dismenorreia: não tratam o mecanismo da dor e trazem riscos que não compensam. Suplementos como magnésio, vitamina B1 ou ômega-3 aparecem em alguns estudos com benefício possível, porém incerto, e não substituem as opções de primeira linha.

Referência reconhecida em dor

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).

SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

O que é dismenorreia secundária?

É a cólica menstrual causada por uma doença ginecológica identificável, como endometriose (a mais comum), adenomiose, mioma, pólipo, doença inflamatória pélvica ou estenose cervical. Diferente da primária, que decorre apenas do excesso de prostaglandinas, a secundária costuma surgir ou piorar com o tempo, durar mais e responder mal aos anti-inflamatórios, e pede avaliação com o ginecologista para tratar a causa.

Por que tenho cólica antes da menstruação?

A cólica costuma começar horas antes ou junto com o início do fluxo, quando a queda da progesterona dispara a liberação de prostaglandinas. Cólica que aparece vários dias antes, com inchaço e oscilação de humor, pode fazer parte da tensão pré-menstrual. Já a cólica que aparece fora do período ou que muda de padrão merece atenção e avaliação.

A cólica menstrual pode irradiar para a perna?

Sim. A dor da cólica menstrual com frequência desce para a região lombar e para a face interna das coxas. Isso ocorre porque a dor do útero é uma dor visceral referida: suas aferências entram na medula pelos mesmos níveis (T10 a L1 e S2 a S4) que recebem sinais da pele e dos músculos dessas regiões. Dor com dormência ou fraqueza nas pernas, porém, foge desse padrão e deve ser avaliada.

Como diferenciar cólica menstrual de cólica intestinal?

A cólica menstrual segue o ciclo, concentra-se no baixo ventre na linha média e acompanha o fluxo. A cólica intestinal relaciona-se ao hábito intestinal, costuma melhorar após evacuar e vem com distensão. As prostaglandinas também agem no intestino, então náusea e diarreia podem aparecer junto da menstruação, mas o padrão temporal ajuda a distinguir.

A acupuntura funciona para cólica menstrual?

A acupuntura pode reduzir a dor da dismenorreia primária, com evidência razoável, ainda que de qualidade variável. Ela age modulando a dor por vias da medula e descendentes e relaxando a musculatura, e é um recurso adjuvante, parte de um plano, não um substituto da avaliação ginecológica quando há suspeita de causa secundária. Detalhamos o tema na página de acupuntura e dismenorreia.

Qual o melhor remédio para cólica menstrual?

Não há um único melhor remédio. Na dismenorreia primária, os anti-inflamatórios são a primeira linha porque inibem a COX e reduzem as prostaglandinas; incluem ibuprofeno, naproxeno, ácido mefenâmico e diclofenaco. A escolha, a dose e a duração dependem de cada pessoa e cabem ao médico. Os contraceptivos hormonais são outra opção, prescrita pelo ginecologista.

Dismenorreia tem cura?

Depende da causa. A dismenorreia primária não é uma doença, e sim uma resposta do útero ao excesso de prostaglandinas; ela costuma ser bem controlada e tende a melhorar com a idade e após uma gestação. Já a secundária depende do tratamento da doença de base pelo ginecologista. O objetivo do manejo da dor é controlá-la e devolver a rotina, dentro de um plano individualizado.

Quando devo procurar um médico para as cólicas?

Quando a cólica impede a rotina apesar dos cuidados, piorou ao longo dos anos, dura mais do que a menstruação, vem com dor na relação sexual, dor cíclica ao evacuar ou urinar, sangramento anormal ou dificuldade para engravidar. Esses sinais pedem avaliação ginecológica para investigar uma causa secundária. Em paralelo, um médico da dor pode ajudar no manejo da dor com uma abordagem multimodal.

Evidência científica · resumos da nossa biblioteca

Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.

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Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Jo J; Lee SH. Heat therapy for primary dysmenorrhea: A systematic review and meta-analysis of its effects on pain relief and quality of life. Scientific reports. 2018. doi:10.1038/s41598-018-34303-z. PMID:30389956.
  2. Burnett M. Guideline No. 345: Primary Dysmenorrhea. Journal of obstetrics and gynaecology Canada: JOGC = Journal d'obstetrique et gynecologie du Canada: JOGC. 2025. doi:10.1016/j.jogc.2025.102840. PMID:40216328.
Atualizado em 04 jun 2026 Leitura 14 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A dismenorreia pode ter uma causa ginecológica que exige diagnóstico e tratamento próprios, e a resposta ao manejo da dor varia entre pacientes.

Equipe médica · Jardim Paulista · 40+ anos

Centro de Tratamento de Dor, Fisiatria e Acupuntura Médica.

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