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New York Times: A Acupuntura em direção à popularidade

Por ANAHAD O’CONNOR

NY Times

Três anos atrás, Alfred Szymanski parecia não conseguir manter sua pressão sangüínea sob controle. Ele corria 16km por semana, fazia uma dieta saudável e tomava medicamentos para hipertensão, tudo porém sem efeito. Seu médico sugeriu uma troca de medicamentos, mas Sr. Szymanski, sabendo dos efeitos colaterais, decidiu tentar algo que nunca havia pensado antes: acupuntura.

Após três sessões de 20 minutos cada, todas cobertas pelo seu plano de saúde, sua pressão sangüínea diminuiu em 20 pontos.

“Sempre que eu saía de uma sessão eu me sentia muito relaxado; eu me sentia eufórico”, disse Szymanski, 61, que mora em Nova Iorque. “Minha pressão sangüínea continuou baixa por um considerável tempo.”

A Acupuntura, que por muito tempo foi desprezada pela medicina comum mas que por séculos foi considerada a pérola da terapia alternativa, está lentamente ganhando espaço nas clínicas do país. Enquanto alguns especialistas ainda questionam sua efetividade, estudos recentes – incluindo uma em Duke semana passada – descobriram um valor científico por trás de seus benefícios, apoiando sua utilidade em aliviar desde o enjõo matinal até a síndrome de túnel do carpo.

Nos últimos anos, o número de hospitais que oferecem acupuntura e outras terapias alternativas duplicou. Ao mesmo tempo, programas de treinamento de pós-graduação em medicina alternativa têm se espalhado em universidades por todo o país, mais recentemente em Harvard e na Universidade de São Francisco.

“Existe uma grande demanda para esses programas agora porque muitos médicos estão interessados em aprender acupuntura”, disse Dr. Nader E. Soliman, um anestesista em Rockville, Md., e presidente da Academia Americana de Acupuntura Médica. “Muitos médicos que costumavam ser extremamente relutantes em indicar pacientes para o tratamento agora o estão fazendo regularmente.”

Pacientes curiosos em conhecer melhor a medicina alternativa e o aumento dos céticos em relações às indústrias de remédios estão também procurando o procedimento, dizem especialistas.

Uma visita a um acupunturista pode custar de 50 a 100 dólares. No entanto, para pessoas que trabalham em certas companhias, elas podem custar bem menos. Cada vez mais, os empregadores que procuram por tratamentos com baixo custo para adicionarem aos seus planos de saúde, estão adotando a acupuntura. Quase 50% dos trabalhadores beneficiados receberam esta cobertura em 2004, comparada com os apenas 30% de dois anos atrás, de acordo com uma pesquisa deste mês realizada pela Kaiser Family Foundation and Health Research and Educational Trust.

Essa tendência, pelo que parece, não está limitada apenas aos humanos. Numa sociedade de pessoas ligadas aos seus animais de estimação, não é surpreendente que veterinários por todo o país digam que estão recebendo também uma grande demanda pelo serviço. Dra. Barbara Royal, uma veterinária que trabalha numa clínica particular, disse que tem recebido inúmeras reservas desde o dia em que recebeu sua licença de acupuntura oito anos atrás. “As pessoas estão desesperadas por isso”, disse ela.

Dra. Royal usa sua técnica principalmente em gatos e cães afetados pela artrite, mas recentemente ela tem sido chamada para atender animais exóticos. No Zoológico Brookfield em Chicago, ela regularmente usa acupuntura para aliviar artrite em um camelo de 725kg, que agora pode correr novamente pela primeira vez em muitos anos.

“Eu acho que a tendência em animais está relacionada com o que acontece com os seres humanos”, disse ela. “Existe um movimento holístico lá fora, e se as pessoas encontram algo que funciona para elas, elas vão querê-las também para seus animais.”

No entanto, enquanto a acupuntura lentamente se incorpora ao público, alguns especialistas estão pedindo um regulamento mais rígido. Dr. Joseph J. Fins, um membro da Comissão Casa Branca em Policiamento de Medicina Alternativa e Complementar dois anos atrás, disse que enquanto a acupuntura continuar relativamente segura e efetiva, não haveria nenhum sistema de rastreamento de efeitos colaterais. Sem um monitoramento próximo, ele afirmou, um acupunturista descuidado que reusar agulhas contaminadas por hepatite, por exemplo, pode facilmente não ser notado.

“Por causa do número de pessoas que a usam, é importante que nós tenhamos algum tipo de sistema de monitoramento”, disse Dr. Fins, chefe da divisão de ética médica no Colégio Médico Weill da Universidade Cornell em Nova Iorque. “Não há nenhuma mecanismo real para coletar informações sobre a segurança e a eficácia desses tratamentos. É o mesmo problema com suplementos que não necessitam de receita médica”.

Especialista dizem que um vasto número de terapias alternativas, como gotas de óleo e aromaterapia, possuem pequena base científica ou ainda não foram propriamente estudados. No entanto, o governo financiou pesquisas em dados de acupuntura a partir da década de 70, ao mesmo tempo em que o tratamento começou a se tornar popular nos Estados Unidos. A acupuntura foi criada na China há cerca de 2000 [obs: outros estudos afirmam 5000] anos atrás.

“Das muitas terapias alternativas, essa foi realmente a primeira a ser estudada seriamente pelo Instituto Nacional de Saúde”, disse Dr. Richard Nahin, conselheiro da coordenação científica no Centro Nacional para Medicina Complementar e Alternativa em Bethesda, Md.

Alguns dos resultados de décadas de pesquisa em acupuntura têm sido ambíguos. Devido ao fato de ela envolver a inserção de agulhas na pele, a criação do equivalente às pílulas de placebo para grupos de controle em alguns estudos pode ser muito complicado, segundo especialistas. E, em alguns casos, a acunpuntura mostrou poder ajudar a aliviar certas condições – como o vício em drogas – quando combinada com outros tratamentos, mas não necessariamente quando usada sozinha.

Para outros problemas físicos ou mentais, entretanto, a acupuntura mostrou-se mais eficaz do que remédios padrões – e sem efeitos colaterais.

Para outros problemas físicos ou mentais, entretanto, a acupuntura mostrou-se mais eficaz do que remédios padrões – e sem efeitos colaterais. Ela têm sido usada largamente durante anos para aliviar condições de dor crônica, e estudos têm repetidamente enfatizado sua utilidade.

Semana passada, pesquisadores em Duke mostraram que ela era bem mais efetiva para doenças pós-operatórias e vômitos em um grupo do que Zofran, uma droga anti-náusea vastamente utilizada. De modo grosseiro, um quarto das pessoas que passam por sérias cirurgia nos Estados Unidos sofreram ânsia de vômito e mal-estar logo em seguida, normalmente causada pela anestesia. Remédios que tratam náusea oferecem alívio, porém pelo fato deles causaram severas dores de cabeça e espasmos musculares, um grande número de pacientes relutam a tomá-los, disse Dr. Tong J. Gan, autor de um novo estudo, publicado no jornal Anestesia & Analgesia.

O estudo de Dr. Gan observou um grupo de 75 mulheres que ou foram remediadas com Zofran antes de uma importante cirurgia mamária ou tratadas com um aparelho de eletroacupuntura que liberava pequenas doses de corrente durante a operações. Esta técnica hi-tech preveniu mal-estar em 73% das que a receberam, enquanto em torno de 50% das mulheres que tomaram a droga reclamaram de enjôo no dia seguinte. A porcentagem de enjôo no grupo controle que não recebeu nenhum dos tratamentos foi em torno de 60%.

“Estamos passando por uma fase interessante”, disse Dr. Gan. “Nós estamos encontrando mais e mais evidências sugerindo que terapias alternativas são benéficas, e pacientes estão gradualmente requisitando-a.”

Até uma certa extensão, o aumento do aceitamento da acupuntura reflete um crescente entendimento de seu mecanismo biológico, que até pouco havia sido praticamente um mistério, disse Dr. Gan. Pesquisas sugerem que a estimulação de pontos de acupuntura de algum modo libera um fluxo de endorfina e outros hormônios que amenizam a dor. Outros estudos descobriram que ela afeta partes do sistema nervoso central que controla a pressão sangüínea e a temperatura do corpo, entre outros.

Dr. Nahin afirmou que diversos estudos de imagem que podem trazer luz em como o tratamento influencia a atividade cerebral estão a caminho.

Porém qualquer que seja os efeitos subjacentes da acupuntura, especialistas dizem que sua gradual mistura com a medicina convencional terá amplas implicações, eventualmente abrindo a porta para uma examinação de outras terapias populares, não tão conhecidas pelo público.

“Até agora, nós tivemos muitas poucas evidências científicas confiáveis para comparar a medicina tradicional ou oriental com um aproximamento farmacêutico”, disse Dr. Steven Eubanks, chefe do departamento de cirurgia na Universidade de Missouri. “Esperamos que isto seja adicionado à nossa vontade de avaliar outras terapias alternativas, e para fazer isto com nossa atenta e usual observação científica.”

(Publicado no jornal The New York Times, em 28 de Setembro de 2004)

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