Dor facetária e artrose das articulações das facetas
Dor facetária nasce nas pequenas articulações posteriores da coluna, em geral pela artrose delas: uma dor axial que piora ao estender o tronco.
- As articulações interapofisárias (facetas articulares, ou articulações zigapofisárias) são as articulações de trás da coluna, que guiam e limitam o movimento entre duas vértebras. Quando se desgastam, surge a artrose interapofisária, ou artrose facetária.
- A dor facetária é tipicamente axial (na coluna, sem descer pela perna em trajeto de nervo), pior em extensão e rotação, e costuma aliviar ao flexionar o tronco para a frente.
- O diagnóstico é clínico e pode ser confirmado por bloqueio diagnóstico; o tratamento é multimodal e não-cirúrgico, com exercício como base, e a artrose facetária, embora não tenha cura, costuma ser bem controlada.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
Articulações interapofisárias: o que é
Cada par de vértebras se conecta em três pontos: à frente, pelo disco intervertebral, e atrás, por duas pequenas articulações, uma de cada lado. Essas articulações posteriores são as articulações das facetas, ou articulações interapofisárias. Elas têm cartilagem, cápsula e líquido sinovial, como o joelho, e por isso podem inflamar e desenvolver artrose.
Os nomes confundem porque são vários para a mesma estrutura. Articulação interapofisária, articulação zigapofisária e articulação facetária são sinônimos; no plural, articulações interapofisárias e articulações facetárias designam o mesmo conjunto de articulações posteriores. O termo “faceta” vem das superfícies articulares, as faces articulares, dos processos articulares superior e inferior de cada vértebra; cada faceta vertebral desliza sobre a faceta da vértebra vizinha. No laudo, podem aparecer como “articulações interapofisárias” ou “facetas articulares”, com ou sem sinais de desgaste.
A função delas é mecânica e precisa. As facetas guiam a direção do movimento de cada segmento e funcionam como freio: limitam a rotação excessiva e, sobretudo, controlam a extensão, o movimento de jogar o tronco para trás. Quando você se inclina para trás, a carga sobre a coluna migra do disco, na frente, para as facetas, atrás. Esse detalhe explica todo o padrão de dor que vem a seguir: o que sobrecarrega a faceta dói, e o que a alivia melhora.
Como nasce a artrose interapofisária e a dor
A artrose interapofisária segue o roteiro de qualquer osteoartrose: a cartilagem que reveste as faces articulares se desgasta, o osso reage formando osteófitos (os “bicos de papagaio”) nas bordas, a cápsula da articulação engrossa e a sinóvia pode inflamar. O resultado é uma articulação maior, mais rígida e dolorida. Esse processo é frequente na coluna lombar baixa, onde a carga é maior, e aparece com destaque na artrose interfacetária lombar inferior, nos níveis L4-L5 e L5-S1, além de ser comum na coluna cervical.
Há uma relação importante com o disco. Quando o disco perde altura com o tempo, as facetas do mesmo nível passam a se aproximar e a receber mais carga do que foram desenhadas para suportar. Por isso a degeneração discal e a artrose facetária costumam caminhar juntas, e a dor de um quadro pode somar-se à do outro. É o que detalhamos na página sobre discopatia e doença degenerativa do disco.
A dor em si tem endereço definido. Cada articulação facetária é inervada pelos ramos mediais dos nervos espinhais, pequenos ramos que carregam a informação dolorosa da cápsula e do osso subcondral. Quando essa articulação inflama ou é sobrecarregada, esses ramos disparam, e o cérebro interpreta uma dor profunda, mal localizada, na região da coluna e ao redor dela. Esse trajeto nervoso conhecido é o que torna possível, mais adiante, tratar a dor bloqueando ou interrompendo justamente esses ramos mediais.
Como reconhecer a dor facetária
O padrão da síndrome facetária é reconhecível na história. A dor é axial, ou seja, sentida na própria coluna e na musculatura ao redor, e não desce pela perna seguindo o trajeto de um nervo. Costuma ser descrita como uma dor profunda, em peso, de um lado ou dos dois. Quando é lombar, pode irradiar de forma difusa para a nádega e a parte de trás da coxa, mas em geral não passa do joelho; quando é cervical, espalha para o ombro e a base do crânio.
O traço mais útil é o que piora e o que alivia. A dor facetária piora em extensão, quando a pessoa joga o tronco para trás, fica muito tempo em pé, pega um objeto numa prateleira alta ou caminha em ladeira para baixo, e piora ao girar o tronco para o lado dolorido. Tende a aliviar ao flexionar para a frente, ao sentar curvado ou ao se apoiar num carrinho de compras.
A rigidez ao acordar, que melhora com o movimento nos primeiros minutos, é frequente. Esse comportamento, oposto ao da dor discogênica, é a principal pista clínica.
Se a sua dor de coluna piora ao se inclinar para trás e ao girar, e melhora ao se curvar para a frente, ela tem cara de dor facetária. O contrário, dor que piora ao sentar e ao flexionar, aponta mais para o disco.
- Dói na coluna. Dor axial, sem trajeto de nervo descendo pela perna.
- Piora para trás. Extensão, rotação e tempo em pé intensificam o quadro.
- Alivia para a frente. Flexão do tronco e sentar curvado costumam aliviar.
- Rigidez matinal. Travamento ao acordar que solta com o movimento.
Diagnóstico: clínico e bloqueio diagnóstico
O diagnóstico da dor facetária é, antes de tudo, clínico. Ele se constrói com a história, o padrão de dor descrito acima e o exame físico, no qual o médico reproduz a dor ao estender e girar a coluna e ao pressionar sobre as articulações, ao lado da linha média. Não existe um teste físico isolado que confirme a faceta com certeza, por isso a soma dos achados é o que importa.
A imagem tem papel de apoio, não de juiz. A artrose facetária aparece com facilidade na tomografia e na ressonância, mas é um achado tão comum em pessoas sem nenhuma dor que vê-la no exame não prova que ela seja a causa do sintoma. Como em toda a coluna, trata-se o paciente, e não o laudo: a artrose interapofisária no relatório só ganha peso quando combina com o lado, o nível e o padrão da queixa.
Quando há dúvida real, ou antes de considerar um procedimento definitivo, recorre-se ao bloqueio diagnóstico. Sob orientação de imagem (radioscopia ou ultrassom), injeta-se um anestésico local sobre os ramos mediais que inervam as facetas suspeitas, ou dentro da própria articulação. Se a dor do paciente cai de forma expressiva e temporária, logo após o bloqueio, isso confirma que aquela articulação é mesmo a fonte e indica que ela pode responder à radiofrequência. É um teste, ainda que terapêutico, que dá ao plano a precisão de um endereço.
| Origem | Onde dói | Pista que diferencia |
|---|---|---|
| Facetária (interapofisária) | Coluna, axial; nádega/coxa até o joelho | Piora ao estender e girar para trás; alivia ao flexionar; rigidez matinal |
| Discogênica | Coluna, axial, mais central | Piora ao sentar e ao inclinar para a frente; não desce em trajeto de nervo |
| Radicular (ciática) / hérnia | Desce para a perna no trajeto de uma raiz | Formigamento ou fraqueza em L4, L5 ou S1; ver página sobre hérnia |
| Sacroilíaca | Sobre a nádega, transição lombossacra | Piora ao levantar de cadeira e subir escada; manobras próprias da articulação |
| Miofascial | Musculatura paravertebral, difusa | Bandas tensas e pontos-gatilho à palpação, que reproduzem a dor |
Essas fontes não se excluem e com frequência coexistem. Uma mesma pessoa pode ter artrose facetária, desgaste discal e pontos-gatilho contribuindo juntos, e é por isso que o tratamento ataca mais de um mecanismo ao mesmo tempo. A investigação completa da dor lombar, incluindo os sinais de alerta, está no guia de tratamento da lombalgia.
Sinais de alerta
A dor facetária por artrose é, na imensa maioria das vezes, benigna. Ainda assim, alguns sinais indicam que a avaliação não deve esperar, porque apontam para causas que mudam a conduta. Procure atendimento sem demora se notar qualquer um destes:
Procure avaliação sem demora se houver
- Dificuldade para urinar, perda do controle da urina ou das fezes, ou dormência na região da sela (entre as pernas, ao sentar).
- Fraqueza nas pernas que piora de forma progressiva ou que afeta os dois lados.
- Febre, perda de peso sem explicação ou história de câncer.
- Dor após trauma significativo, ou em pessoa em uso de corticoide ou imunossuprimida.
- Dor que não alivia com o repouso, acorda à noite ou começa após os 50 anos pela primeira vez.
Esses sinais não são típicos da artrose facetária e levantam outras hipóteses, da síndrome da cauda equina à infecção ou à doença tumoral. Na ausência deles, a dor de fundo facetário costuma responder bem ao tratamento conservador ao longo de algumas semanas.
Tratamento da dor facetária
O tratamento da dor facetária é multimodal, não-cirúrgico e individualizado. Como a artrose das articulações das facetas não se reverte, o objetivo não é apagar o desgaste da imagem, mas reduzir a dor, recuperar a função e dar à coluna a força e o controle para tolerar a carga do dia a dia. A base é ativa, com exercício orientado; as demais técnicas somam-se a ela conforme a apresentação e a resposta. Os procedimentos mais específicos, o bloqueio e a radiofrequência, ganham espaço justamente porque a faceta tem um nervo conhecido, o ramo medial, que se pode alcançar.
Reabilitação ativa
Controle motor do tronco, estabilização e fortalecimento para descarregar as facetas; base de todo o plano.
Acupuntura e eletroacupuntura
Modulação segmentar no nível doloroso; solta o espasmo dos eretores que trava a extensão.
Agulhamento seco / infiltração de gatilho
Desativa pontos-gatilho dos multífidos, quadrado lombar e glúteos que somam dor ao quadro.
Ondas de choque / laser / mesoterapia
Adjuvantes para o componente miofascial associado, não para a artrose em si.
Bloqueio facetário
Anestésico (por vezes com corticoide) na articulação ou nos ramos mediais, guiado por imagem: confirma a fonte e abre janela de alívio.
Radiofrequência dos ramos mediais
Calor controlado interrompe o sinal de dor da faceta após bloqueio diagnóstico positivo; casos selecionados.
Toxina botulínica
Reservada a quadros refratários com forte espasmo paravertebral; não é primeira linha.
Medicação adjuvante
Analgésicos e adjuvantes para a fase de dor, abrindo espaço para a reabilitação progredir.
Reabilitação ativa: a base do plano
- O que é
- A intervenção com a melhor relação entre evidência e segurança, e o eixo de todo o resto do tratamento da dor facetária.
- Mecanismo
- Recupera o controle motor e a estabilização do tronco, ativando a musculatura profunda (transverso do abdome e multífidos) e fortalecendo glúteos e cadeia posterior; distribui melhor a carga sobre as facetas, reduz o estresse mecânico que dispara a dor e dessensibiliza ao movimento. Inclui báscula da pelve e controle da extensão lombar para descarregar as articulações posteriores.
- Evidência
- Forte O exercício é a base do tratamento conservador da dor axial degenerativa, com benefício consistente na dor e na função.
- O que esperar
- Resposta gradual ao longo de semanas; o ganho se mantém enquanto o programa é mantido, porque o desgaste em si não desaparece.
- Limitações
- As formas de organizar a progressão (cinesioterapia, RPG, Pilates clínico e terapia manual) são detalhadas, com mecanismo e evidência, na seção sobre o tratamento não farmacológico; as técnicas abaixo somam-se a essa base ativa quando há um componente que as justifique.
Acupuntura médica e eletroacupuntura
- O que é
- Ato médico na clínica, feito por acupunturiatra que examina a coluna antes de agulhar, para separar o componente facetário do miofascial e do radicular.
- Mecanismo
- Agulhas nos planos paravertebrais do nível doloroso modulam a dor por via segmentar no corno dorsal daquele segmento medular (a mesma metameria que recebe a aferência da cápsula facetária pelos ramos mediais), somando vias inibitórias descendentes e opioides endógenos; na eletroacupuntura, a baixa frequência recruta mais esses sistemas e ajuda a soltar o espasmo dos eretores que trava a extensão.
- Evidência
- Moderada para a lombalgia e a cervicalgia crônicas, perfis em que a dor facetária pesa.
- O que esperar
- O ciclo se ancora à reabilitação, não a um número fixo de sessões: séries semanais enquanto a dor limita o exercício de controle de extensão, com reavaliação a cada poucas sessões e suspensão quando a pessoa tolera a carga sem o recurso.
- Indicações
- Útil pelo que poupa: reduz a necessidade de anti-inflamatório de uso prolongado em quem já é idoso e tem rim e estômago a proteger.
Agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho
- O que é
- A faceta inflamada quase nunca dói sozinha: os multífidos e o longuíssimo daquele nível, o quadrado lombar e os glúteos entram em guarda reflexa e desenvolvem pontos-gatilho que somam dor e mantêm a coluna travada em extensão, perpetuando o ciclo dor-espasmo-dor.
- Mecanismo
- No agulhamento seco, a agulha na banda tensa do paravertebral provoca a resposta de contração local, normaliza a placa motora hiperativa e reduz a aferência nociceptiva do músculo que partilha o mesmo segmento medular da faceta; o efeito é local e segmentar. Quando o ponto resiste, a infiltração com anestésico local (ou soro fisiológico) quebra o ciclo na banda mais profunda do multífido.
- Evidência
- Moderada para o componente miofascial; o agulhamento alivia o sobrespasmo, não o desgaste da articulação.
- O que esperar
- A resposta costuma vir entre a sessão e os dias seguintes; compra a janela de menos dor em que a reeducação da extensão precisa acontecer.
- Limitações
- Agulhar o paravertebral lombar é seguro em mãos treinadas, mas no nível torácico, onde a parede é fina, a profundidade é controlada para não atravessar a pleura; em quem usa anticoagulante a indicação é pesada caso a caso.
Ondas de choque, laser de alta intensidade e mesoterapia
Ondas de choque
Maior benefício em tendinopatias e na dor miofascial crônica; na dor facetária entram como adjuvante para o componente miofascial associado, não como tratamento da artrose em si.
Laser de alta intensidade
Atua por fotobiomodulação, com efeito analgésico e anti-inflamatório em profundidade, útil como adjuvante na reabilitação da musculatura paravertebral.
Mesoterapia (intradermoterapia)
Microinjeções intradérmicas de medicamentos diluídos sobre a área dolorosa, com proposta de ação local prolongada em baixas doses; evidência heterogênea, recurso seletivo, sempre somado às medidas de base.
Bloqueio facetário e radiofrequência dos ramos mediais
Aqui está o que diferencia o tratamento da dor facetária. O bloqueio facetário é a injeção de anestésico, por vezes com corticoide, dentro da articulação ou sobre os ramos mediais que a inervam, sob orientação de imagem. Tem valor duplo: confirma a faceta como fonte da dor (bloqueio diagnóstico) e oferece alívio que pode durar de dias a semanas, abrindo uma janela para avançar a reabilitação. Quando esse bloqueio confirma a origem mas o alívio é apenas temporário, considera-se a radiofrequência: por uma agulha-eletrodo posicionada sob radioscopia, aplica-se calor controlado sobre os ramos mediais, interrompendo de forma prolongada o sinal de dor daquela articulação.
O efeito pode durar muitos meses; como o nervo se regenera com o tempo, a dor pode retornar e o procedimento pode ser repetido. São recursos para casos selecionados, e não substituem o tratamento ativo.
Algumas observações de consultório:
- A história costuma ser mais reveladora que a ressonância. Quem descreve dor ao pegar algo na prateleira alta, ao descer ladeira ou ao ficar muito tempo em pé numa fila, e alívio ao se debruçar sobre o carrinho de supermercado, está descrevendo o padrão facetário antes de qualquer imagem.
- O bloqueio diagnóstico é, na prática, um teste, não um tratamento. O valor dele está na resposta: quando a dor cai de forma expressiva por algumas horas e depois volta, é isso que indica que aquela faceta é a fonte e que a radiofrequência tende a funcionar; um bloqueio que alivia pouco é informação útil, costuma redirecionar a investigação para o disco ou a sacroilíaca.
- A radiofrequência faz sentido quando o bloqueio confirma a origem mas o alívio é só temporário, e a pessoa já vinha fazendo reabilitação. Costuma valer a pena conversar de antemão que o nervo se regenera e a dor pode voltar em meses; quem entende isso encara o procedimento como o que ele é, uma janela longa para treinar a coluna, e não uma cura.
- O que mais surpreende quem chega é descobrir que o espasmo paravertebral que mais incomoda no dia a dia muitas vezes alivia antes da artrose, com agulhamento e exercício de controle de extensão, mesmo que a imagem continue mostrando o mesmo desgaste.
A maior parte dos textos trata “artrose facetária no laudo” como se fosse o diagnóstico da dor. Não é. A artrose das facetas é tão comum em quem não sente nada que encontrá-la na imagem prova pouco: o que define a dor facetária é o padrão clínico (piora em extensão e rotação, alívio em flexão) confirmado, quando há dúvida, pelo bloqueio dos ramos mediais. Por isso o exame que de fato fecha o diagnóstico não é a ressonância, e sim um teste anestésico de poucos minutos guiado por imagem. A consequência prática incomoda quem procura um culpado único: o mesmo laudo de “artrose facetária” pode ser a causa da dor numa pessoa e um achado irrelevante na vizinha de sala de espera.
Toxina botulínica para casos refratários
Reservada a quadros que não respondem ao tratamento inicial, sobretudo quando há forte componente de espasmo e dor miofascial paravertebral mantendo a queixa. A toxina botulínica tipo A bloqueia a liberação de acetilcolina na junção neuromuscular e reduz a liberação periférica de neuropeptídeos nociceptivos (como CGRP, substância P e glutamato), com efeito antinociceptivo que vai além do relaxamento muscular. Não é primeira linha para a dor facetária comum. O efeito começa em 2 a 4 semanas e dura cerca de três a quatro meses, com benefício cumulativo entre ciclos.
Vale separar duas técnicas de nomes parecidos: o bloqueio facetário alcança a articulação e seus ramos mediais, enquanto o bloqueio de Fischer é superficial e trata a sensibilização do segmento inteiro.
Controle inicial
Reduzir picos de extensão, ajustar postura e iniciar mobilidade e ativação do tronco, mantendo-se ativo.
Progressão
Fortalecimento, estabilização e técnicas em clínica; a dor costuma começar a ceder e a função a melhorar.
Reavaliação
Sem a resposta esperada, considera-se o bloqueio diagnóstico e, se confirmado, a radiofrequência.
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
A reabilitação ativa é a base do tratamento da dor facetária e a intervenção com melhor evidência de aliviar a dor, recuperar a função e prevenir recidiva, sem mexer no desgaste da imagem. Não é “fazer exercício” de forma genérica: é um programa individualizado, com um paciente por sala, que recupera o controle motor do tronco, corrige déficits de força e mobilidade e dessensibiliza o sistema nervoso ao movimento, com atenção específica a controlar a extensão e a rotação que sobrecarregam as facetas. As modalidades a seguir são formas diferentes de organizar essa progressão; a escolha depende da apresentação e da preferência de cada pessoa, porque a adesão a longo prazo é o que de fato sustenta o resultado.
Cinesioterapia e exercício terapêutico
Exercício prescrito e progredido pelo fisioterapeuta, com foco em controle motor do tronco, força e condicionamento, e não em alongamentos isolados. Reeduca a ativação do transverso do abdome e dos multífidos, fortalece glúteos e eretores e melhora a tolerância das facetas à carga, reduzindo o estresse mecânico que gera dor; treina o controle da extensão e da rotação lombar, os movimentos que fecham e sobrecarregam a faceta. Nenhuma modalidade de exercício é claramente superior, o que reforça regularidade e progressão como decisivas. Limitações: exige constância; iniciar com carga excessiva ou abusar da extensão pode exacerbar a dor, e não dispensa o rastreio de sinais de alerta antes de começar.
RPG, a reeducação postural global
Trabalha o corpo por cadeias musculares, com posturas de alongamento ativo global mantidas e progressivas, em que o paciente faz contração isométrica de caráter excêntrico contra a tensão da própria cadeia (sobretudo a posterior), usando a respiração para vencer resistências. Reequilibra encurtamentos e compensações, em particular a hiperlordose e a anteversão da pelve, que mantêm as facetas em extensão e as sobrecarregam. Benefício em dor e função na lombalgia crônica comparável ao de outros programas, sem superioridade clara. Limitações: exige constância e execução tecnicamente correta, o que torna a supervisão qualificada parte do tratamento.
Pilates clínico
Forma de organizar o ganho de controle motor e estabilização do tronco, com indicação e supervisão. Enfatiza o recrutamento dos estabilizadores profundos, o alinhamento da coluna sob carga controlada e a coordenação entre respiração, centro de força e movimento dos membros, com progressão de solo para aparelhos. Para a dor facetária é útil por permitir trabalhar força e mobilidade evitando os extremos de extensão e rotação que fecham as facetas, com ênfase na ativação do core em posição neutra. Benefício em dor e função semelhante ao de outras formas de exercício. Limitações: exige regularidade e dosagem; a fase mais dolorosa pode pedir adaptação antes de progredir a carga.
Terapia manual e mobilidade
Mobilização articular e liberação miofascial aplicadas pelo fisioterapeuta. O mecanismo provável combina efeitos neurofisiológicos (modulação segmentar da dor, redução transitória do tônus) e melhora momentânea da mobilidade, mais do que “reposicionamento” de estruturas. Sustenta-se como adjuvante do exercício, com benefício de curto prazo, e não como tratamento isolado: abre uma janela de menos dor e mais movimento na qual a cinesioterapia progride. Limitações: efeito tipicamente transitório; a manipulação de alta velocidade exige critério na coluna do idoso com desgaste avançado ou osteoporose, situações em que se preferem técnicas de mobilização mais suaves.
Na clínica, a reabilitação é integrada à avaliação médica, de modo que o programa de exercício é ajustado ao gerador de dor predominante (axial mecânico, miofascial ou componente referido) e à tolerância de cada pessoa.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
Convém ser direto, porque este ponto gera medo desnecessário: a cirurgia raramente é necessária para a dor facetária por si só. Para a dor mecânica das facetas, sem compressão de raiz e sem instabilidade, não há evidência de que operar seja superior a um programa conservador bem conduzido. A artrose facetária isolada, mesmo “avançada” no laudo, não é indicação de cirurgia.
A operação só faz sentido quando o desgaste produz uma consequência estrutural definida que comprime nervos ou desestabiliza o segmento, e que não respondeu, ou não pode esperar, pelo tratamento conservador. Estas opções não são realizadas em nossa clínica, cujo foco é o manejo não-cirúrgico da dor.
Conservador · 1ª escolha
Plano multimodal não-cirúrgico
- Reabilitação ativa como base, com controle de extensão e rotação
- Acupuntura, agulhamento seco e técnicas em clínica para o componente miofascial
- Medicação adjuvante em ciclos curtos na fase de dor
- Bloqueio facetário e radiofrequência dos ramos mediais nos casos selecionados, para evitar ou adiar a cirurgia
Cirúrgico · exceção
Quando há consequência estrutural definida
- Síndrome da cauda equina: emergência cirúrgica (retenção/incontinência urinária, anestesia em sela, déficit motor bilateral progressivo)
- Estenose de canal lombar sintomática e refratária com claudicação neurogênica que limita a marcha
- Radiculopatia compressiva incapacitante, sobretudo com déficit motor relevante ou progressivo
- Instabilidade ou deformidade documentada (ex.: espondilolistese degenerativa sintomática) refratária
As situações em que a avaliação de um cirurgião de coluna (ortopedista ou neurocirurgião) é apropriada são bem delimitadas, e qualquer déficit neurológico progressivo é sinal para avaliar sem demora. Quando a cirurgia se justifica, os procedimentos mais comuns são:
- Descompressão (laminectomia / foraminotomia)
- Ampliação do canal ou do forame para aliviar a compressão quando a hipertrofia da faceta estreita o espaço e causa estenose com claudicação incapacitante. Melhora a tolerância à marcha; a dor axial da artrose pode persistir em parte, porque o desgaste em si não é removido.
- Microdiscectomia
- Remoção do fragmento de disco que comprime a raiz, quando há radiculopatia refratária associada. Alivia a dor na perna mais rápido que a espera; não é tratamento para a dor facetária axial isolada.
- Artrodese (fusão vertebral)
- Fusão de um ou mais segmentos, reservada à instabilidade ou deformidade documentada e refratária. É procedimento maior, de recuperação mais longa, sem benefício comprovado para a dor facetária degenerativa inespecífica.
Mesmo quando indicada, a decisão é compartilhada e individualizada: pesam o grau de incapacidade, a presença e a evolução de déficit neurológico, a correlação entre a imagem e o quadro clínico, e as expectativas da pessoa. Vale lembrar que achados de imagem (artrose facetária, osteófitos, redução do espaço discal) são frequentes mesmo em quem não tem dor e, por isso, não bastam sozinhos para indicar cirurgia. Entre o tratamento conservador e a cirurgia há ainda os procedimentos minimamente invasivos descritos antes, o bloqueio facetário e a radiofrequência dos ramos mediais, que na nossa clínica são conduzidos justamente para evitar ou adiar a cirurgia nos casos selecionados. O caminho cirúrgico da compressão de raiz é detalhado na página sobre hérnia de disco.
Tratamento medicamentoso da dor facetária
A medicação tem papel adjuvante na dor facetária: ajuda a abrir uma janela de alívio para que a pessoa volte a se mover e progrida na reabilitação, mas não muda, sozinha, o curso do problema nem reverte o desgaste da articulação. A escolha, a dose e a duração são definidas pelo médico, com atenção redobrada às comorbidades e aos efeitos adversos, sobretudo em pacientes mais idosos, que são justamente os que mais têm artrose facetária. Os fármacos são.
| Classe | Para quê | Evidência | O que esperar / cuidados |
|---|---|---|---|
| Paracetamol | Analgésico simples, para complementar o controle da dor | Limitada | Efeito modesto, bom perfil de tolerância, útil quando os anti-inflamatórios são contraindicados; respeitar a dose máxima diária e ter cautela na doença hepática. |
| Dipirona | Dor leve a moderada na fase sintomática | Limitada | Analgésico e antitérmico de uso comum no Brasil, em ciclos curtos e conforme tolerância. |
| Anti-inflamatório (ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco) | Crises: reduzem dor e inflamação da faceta | Moderada | Ciclos curtos, menor dose eficaz; cautela com o risco gastrointestinal, renal e cardiovascular, especialmente no idoso. |
| Duloxetina | Dor facetária que cronifica; modula vias descendentes de controle da dor | Moderada | Benefício consolidado na dor musculoesquelética crônica, incluindo a lombalgia; efeitos comuns no início são náusea e sonolência. |
| Neuromoduladores (gabapentina, pregabalina, tricíclicos em dose baixa) | Quando há dor neuropática associada, como na estenose com irritação de raiz | Limitada | Benefício na dor axial facetária isolada é limitado; efeitos adversos (sonolência, tontura, edema) exigem indicação criteriosa. |
| Relaxantes musculares (ciclobenzaprina) | Espasmo paravertebral da fase aguda | Limitada | Alívio de curto prazo ao custo de sonolência; uso por poucos dias, não contínuo. |
O bloqueio facetário e a radiofrequência dos ramos mediais, descritos na seção de tratamento, são intervenções, e não comprimidos: entram como recurso pontual quando a dor facetária bem caracterizada não responde ao plano. Algumas situações têm manejo conduzido por outras especialidades: quando a dor tem ritmo inflamatório e aponta para uma espondiloartrite, o tratamento é orientado pelo reumatologista e pode incluir medicamentos modificadores da doença e imunobiológicos, que fogem ao escopo da artrose facetária degenerativa. O papel da clínica da dor é integrar a medicação ao plano multimodal e, sempre que possível, reduzir a polifarmácia à medida que a reabilitação avança. As classes e seus cuidados estão detalhados no guia de remédios para dor.
Centro de Dor
Listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED)
Centro de Tratamento por Ondas de Choque
Listado pela Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque (SMBTOC)
Clínica listada
Listada pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA)
Perguntas frequentes
Artrose facetária tem cura?
A artrose das articulações das facetas, como toda osteoartrose, não tem cura no sentido de reverter o desgaste da cartilagem. Mas isso não significa conviver com dor: na grande maioria dos casos, a dor facetária é bem controlada com tratamento conservador, e procedimentos como o bloqueio e a radiofrequência podem oferecer alívio prolongado. O objetivo é controlar o sintoma e recuperar a função, não apagar o achado da imagem.
O que são as articulações interapofisárias?
São as pequenas articulações posteriores da coluna, uma de cada lado entre duas vértebras, também chamadas de articulações zigapofisárias ou facetárias. Têm cartilagem e cápsula, guiam o movimento de cada segmento e controlam a extensão. Quando se desgastam, surge a artrose interapofisária, causa frequente de dor axial na coluna.
Artrose facetária e artrose interapofisária são a mesma coisa?
Sim. “Faceta”, “interapofisária” e “zigapofisária” são nomes diferentes para a mesma articulação posterior. Logo, artrose facetária, artrose interapofisária e artrose das facetas articulares descrevem o mesmo processo de desgaste. No laudo, o termo pode variar conforme o radiologista.
Como sei se minha dor é facetária ou do disco?
O traço mais útil é o que piora. A dor facetária costuma piorar ao estender e girar o tronco para trás e aliviar ao se inclinar para a frente; a dor discogênica tende ao oposto, piora ao sentar e ao flexionar. As duas podem coexistir, e a definição é clínica, apoiada pelo exame e, quando há dúvida, pelo bloqueio diagnóstico.
A artrose interfacetária lombar inferior é grave?
Em geral, não. A artrose das facetas em L4-L5 e L5-S1 é um dos achados mais comuns da coluna lombar com a idade e aparece também em quem não sente dor. Ela só importa quando combina com o padrão clínico de dor facetária. Mesmo quando dói, costuma responder bem ao tratamento conservador.
A radiofrequência da faceta é definitiva?
Não. A radiofrequência interrompe o sinal de dor dos ramos mediais que inervam a faceta e pode oferecer alívio por muitos meses, mas o nervo se regenera com o tempo e a dor pode retornar; nesse caso, o procedimento pode ser repetido. Ela é indicada para casos selecionados, depois de um bloqueio diagnóstico positivo, e sempre dentro de um plano que mantém a reabilitação.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
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Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Na dor facetária, o nível acometido, a presença de um componente discal ou miofascial e a indicação de bloqueio ou radiofrequência se definem no exame.

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Dr. Obrigado pela informações, estou a cerca de 06 meses com este diagnóstico, já tentei tratamento com Prebital e agora estou com um bloqueio da C5-c6 e C6 e C7 marcado. O artigo esclareceu bastante minhas dúvidas.
Doutor não tenho cartilagem na L5 SI e sofro muitas dores de cabeça na lombar nas pernas e nós braços principalmente no braço esquerdo tenho muita dor e sensibilidade que vai do braço, ombro, pescoço e cabeça fiquei quase um mês sem andar e foi muito doloroso. Eu tenho 42 anos sou lavradora e não posso fazer mais nada que eu gostava isso é muito ruim viver pelas mãos dos outros. A salvação é que voltei a andar mais tudo com limites. O que o senhor acha que posso fazer para melhorar minha vida?
Oi dr eu estou com artrose facetaria+em da vc com discopatia degenerativa por desidratação.alteracoes discais cervicais e lombar.como posso me tratar.corro risco de ter que fazer alguma cirurgia??
Dr alteração degenerativa lombar cervicais e discais
Meu histórico de 20 anos é de crises de dor de cabeças que foram sempre associadas à cervical, principalmente à hérnia C4 e C5 além da ATM que foram tratadas (com sucesso) com muita fisioterapia para cervicalgia e postura. Atualmente (a 1 ano) tenho dores de cabeça somente à noite, quase todos os dias entre 3 e 4 horas da madrugada que somem quando levanto e que ultimamente tenho associando à prática de exercícios ( muito forte no dia que fiz de manhã e mais 1 ou até 2 dias) que pratico regularmente.
Estou com uma protusao em c5/6 e artrose em c2/3/4