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COVID longa · PASC · Manejo prático sintoma a sintoma

Sintomas persistentes de COVID: o que fazer com cada um

Na COVID longa, o manejo é sintoma a sintoma: fadiga e mal-estar pós-esforço, falta de ar, palpitação, tontura ao levantar, dor, névoa cognitiva, olfato, sono e humor. Aqui está o que fazer no dia a dia com cada queixa que não passa.

Resposta direta
  • Os sintomas persistentes de COVID não são um bloco único para esperar passar. Cada um tem um manejo próprio, e tratar o sintoma certo do jeito certo muda o resultado.
  • Fadiga com mal-estar pós-esforço (PEM): o erro mais comum é tentar “voltar à forma” forçando exercício. Quando há PEM, isso piora. O manejo é o pacing: conhecer o seu envelope de energia e ficar abaixo dele, quebrando o ciclo de fazer demais e desabar.
  • Palpitação e tontura ao ficar de pé costumam ser disautonomia, muitas vezes POTS, e são tratáveis: hidratação, sal quando indicado, recondicionamento gradual da postura ereta e avaliação cardiológica.
  • Falta de ar pede afastar primeiro causa cardíaca e pulmonar; confirmado isso, a reeducação respiratória ajuda. Dor muscular e cefaleia são a parte miofascial que a clínica de dor trata.
  • A mensagem que costuma faltar: antes de filar tudo como “é só COVID longa”, investigue as complicações específicas (coração, pulmão, POTS). Dor no peito, falta de ar importante, desmaio, déficit neurológico novo ou sinal de trombose pedem atendimento imediato.
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A regra que vale para tudo

Ilustração editorial de uma pessoa cansada junto à janela, com uma névoa persistente em terracota.
Sintomas que persistem após a covid podem durar semanas e merecem acompanhamento.

A COVID longa quase nunca chega como um sintoma só. Chega como uma lista: o cansaço que não cede, o coração que dispara ao levantar, a falta de ar no esforço leve, a cabeça lenta, a dor que migra pelo corpo. O instinto de tratar a lista inteira de uma vez raramente funciona, porque cada queixa responde a uma alavanca diferente.

Antes de descer aos sintomas, vale fixar a regra que organiza todo o resto. Tratar primeiro o que mais limita a função, proteger contra recaídas com pacing e só então progredir carga. Quem entende a definição e os mecanismos por trás disso encontra a visão geral no guia complementar sobre a síndrome pós-COVID-19: o que é e como tratar. Aqui não vamos repetir a definição: vamos direto ao que fazer com cada sintoma.

A pergunta que vem antes de tratar: esse sintoma progride, limita muito a vida ou destoa do resto do quadro? Se sim, ele merece investigação dirigida (cardíaca, respiratória, neurológica) antes de ser arquivado como “é só long COVID”. Não presuma a causa: confirme. O que não destoa e melhora com o tempo costuma se resolver com manejo sintomático e pacing.

Fachada da clinica com porta de vidro, tapete vermelho de boas-vindas e jardim lateral
Nossa estrutura Entrada principal da clinica com fachada de vidro e concreto.

Sintoma a sintoma: o que fazer com cada um

A tabela é o mapa rápido; logo abaixo, cada sintoma ganha o seu manejo em detalhe. Use-a para localizar a sua queixa principal e pular para o trecho correspondente. A presença de um item não significa dano permanente, e a maioria melhora com tempo e a conduta certa, desde que o que destoa seja investigado.

Sintomas persistentes de COVID e o manejo prático de cada um
SintomaSistema / clusterO manejo prático
Fadiga que não passa com repouso + piora 12 a 72h após esforçoEnergético / autonômicoPacing e envelope de energia; não forçar exercício graduado quando há PEM
Falta de ar e cansaço ao esforço leveRespiratórioAfastar causa cardíaca e pulmonar primeiro; depois reeducação respiratória
Palpitação, taquicardia, tontura ao levantarCardiovascular / disautonomiaPensar em disautonomia/POTS: hidratação, sal, recondicionamento postural, avaliação cardiológica
Dor muscular difusa, dor articular e cefaleiaMusculoesquelético / neurológicoManejo miofascial multimodal e reabilitação; é o foco da clínica de dor
Névoa cognitiva: memória, concentração e raciocínio lentosCognitivoPacing cognitivo, sono; neurologia se progressivo ou incapacitante
Perda ou alteração de olfato e paladarOtorrino / neurológicoTreino olfatório estruturado; otorrinolaringologia se prolongado
Insônia, sono não reparador, humor deprimido, ansiedadeSono / saúde mentalHigiene do sono, tratar dor; apoio psicológico e psiquiatria quando indicado

Fadiga e mal-estar pós-esforço: o pacing antes do exercício

A fadiga da COVID longa não é o cansaço comum que melhora com uma boa noite de sono. Costuma vir com o mal-estar pós-esforço (PEM, ou post-exertional malaise): uma piora desproporcional de tudo, que aparece de 12 a 72 horas após uma atividade física, mental ou emocional antes tolerada, e que pode levar dias para ceder. Esse padrão se sobrepõe ao da encefalomielite miálgica/síndrome de fadiga crônica.

O manejo prático tem nome: pacing. Na prática, isso significa três passos. Primeiro, mapear o envelope de energia, ou seja, o limite de esforço que você tolera num dia sem disparar PEM no dia seguinte. Segundo, ficar abaixo desse teto distribuindo as tarefas, intercalando descanso programado antes de sentir o esgotamento (e não depois) e fatiando atividades longas em blocos curtos.

Terceiro, registrar energia, atividade e sintomas por alguns dias, para enxergar o padrão e ajustar o teto. O alvo inicial não é fazer mais, é quebrar o ciclo de fazer demais e desabar (o ciclo “boom-bust”), porque cada recaída custa dias.

É aqui que mora o erro mais comum. Tratar a fadiga pós-COVID como descondicionamento e prescrever exercício progressivo forçado na lógica do “no pain, no gain” tende a piorar quem tem PEM. As diretrizes de manejo da COVID longa (NICE NG188) e as recomendações para encefalomielite miálgica/síndrome de fadiga crônica (NICE NG206) convergem em recomendar gestão de energia e em desaconselhar a terapia de exercício graduado (GET) baseada em incremento fixo quando há PEM. A NG206 retirou a recomendação de GET após reanálise das evidências.

A distinção que mais muda a conduta é entre descondicionamento simples, que melhora com incremento de exercício, e quadro com PEM, que piora com esse mesmo incremento. Por isso a triagem de PEM antecede qualquer prescrição de atividade. O cansaço persistente também aparece fora da COVID; a abordagem geral está no guia sobre o que pode ser o cansaço crônico e como combatê-lo.

Falta de ar: afastar coração e pulmão antes de reeducar a respiração

A falta de ar pós-COVID tem uma ordem de manejo que não se inverte. Primeiro afastar causa cardíaca e pulmonar; só depois reabilitar a respiração. Dispneia desproporcional ao esforço, progressiva, ou que vem com dor torácica, justifica avaliação da função pulmonar e imagem do tórax, além de avaliação cardiológica, antes de assumir que é apenas um padrão respiratório disfuncional. Esse cuidado evita o erro de tratar como ansiedade ou desuso uma falta de ar que tem causa estrutural.

Afastadas as causas que exigem tratamento próprio, boa parte da dispneia residual responde à reeducação respiratória: muita gente sai da COVID respirando alto, pelo tórax e pela boca, em um padrão acelerado e ineficiente. O reaprendizado da respiração diafragmática, nasal e mais lenta, combinado com a reabilitação respiratória quando indicada, melhora a sensação de fôlego. Como a falta de ar piora com PEM, a progressão segue o mesmo princípio do pacing: avança pela resposta.

Palpitação e tontura ao levantar: pensar em disautonomia e POTS

Coração que dispara, batimento que se faz sentir e tontura ao ficar de pé apontam para disautonomia, a desregulação do sistema nervoso autônomo que controla frequência cardíaca, pressão e fluxo de sangue. A forma mais reconhecida na COVID longa é a POTS (síndrome de taquicardia postural ortostática): a frequência cardíaca sobe de forma sustentada ao assumir a posição em pé, sem queda importante da pressão. Reconhecer isso importa porque tem manejo próprio e razoavelmente eficaz, em vez de ser tratado como ansiedade ou fraqueza.

O manejo prático começa não farmacológico: aumentar a ingestão de líquidos, acrescentar sal à dieta quando apropriado (e liberado pelo médico), usar meias de compressão e, sobretudo, reconstruir a tolerância à posição ereta de forma gradual. A reabilitação aqui inverte a ordem habitual: começa em exercícios recumbentes e horizontais (deitado ou recostado, como bicicleta horizontal ou remo) e só progride para a posição em pé conforme a tolerância. A avaliação cardiológica orienta a conduta, e o teste de inclinação ou a medida da frequência cardíaca em ortostase ajudam a confirmar o padrão. Quando as medidas de volume e reabilitação não bastam, o cardiologista pode considerar agentes específicos, sempre individualizados.

Dor muscular, dor articular e cefaleia: a parte miofascial

A dor difusa em músculos e articulações é uma das queixas mais frequentes e, felizmente, uma das que melhor respondem ao tratamento dirigido. Parte tem componente miofascial, com pontos-gatilho formados pela inatividade e pela tensão mantida durante semanas de doença, concentrados em trapézio, elevador da escápula e suboccipitais. Parte reflete a sensibilização central, em que o sistema nervoso passa a amplificar a dor e a interpretar estímulos comuns como dolorosos.

A cefaleia pós-COVID, nova ou mais frequente, com frequência tem o mesmo substrato cervical e miofascial. Esse é exatamente o terreno em que a clínica de dor atua, com o detalhamento de cada recurso na seção «o que a clínica de dor trata».

Névoa cognitiva: pacing cognitivo e sono

A névoa cognitiva (brain fog) descreve raciocínio lento, falhas de memória recente, dificuldade para achar palavras e para sustentar o foco. Ela piora justamente nos dias de mais fadiga e pior sono, o que mostra que faz parte do mesmo quadro de desregulação, e não de um problema cognitivo isolado. O manejo prático é o pacing cognitivo: aplicar à mente a mesma lógica do envelope de energia, trabalhando em blocos curtos com pausas, fazendo as tarefas que exigem mais foco no melhor horário do dia e tratando o sono como prioridade terapêutica, porque é à noite que a cabeça se reorganiza.

Na maioria, melhora ao longo de semanas a meses quando sono, dor e ritmo de atividades são organizados. Quando é progressiva, intensa ou vem com sinais neurológicos novos, a neurologia é necessária.

Olfato e paladar, sono e humor

A perda ou distorção de olfato e paladar tem um manejo específico e ativo: o treino olfatório, a exposição estruturada e repetida a aromas conhecidos (como café, limão, cravo e eucalipto), duas vezes ao dia por semanas, que ajuda a reeducar a via olfatória. Quando a alteração se prolonga, a otorrinolaringologia avalia. O sono não reparador e o humor merecem atenção própria porque alimentam todo o resto: dor que atrapalha o sono, sono ruim que piora a dor e a névoa, e o peso emocional de um quadro que se arrasta. A higiene do sono, o tratamento da dor e o apoio psicológico (com psiquiatria quando indicado) entram cedo no plano, não no fim.

O que a clínica de dor trata e como

Não existe, até o momento, um tratamento curativo único para a COVID longa, e nenhuma medicação reverte a condição como um todo. Dentro do quadro, a clínica de dor tem um papel definido e calibrado: cuidar da dor persistente musculoesquelética e da cefaleia, apoiar o manejo da fadiga e conduzir a reabilitação por pacing, encaminhando os demais componentes ao especialista certo. O plano é multidisciplinar, multimodal e individualizado, e cada recurso abaixo vem com o que faz, o que esperar e o que não faz.

O princípio que organiza tudo: tratar primeiro o que limita a função (dor, sono, intolerância ortostática), proteger contra recaídas com pacing e só então progredir carga. A ordem importa mais que o número de modalidades.

Reabilitação com pacing e gestão de energia

  • O que é: a estratégia de reabilitação descrita na seção «sintoma a sintoma», aplicada de forma supervisionada: mapear o envelope de energia, manter a atividade abaixo do teto e progredir guiado pela resposta. É a base do manejo quando há fadiga e mal-estar pós-esforço, e tudo o mais se soma a ela.
  • Mecanismo (calibrado): ao evitar os ciclos de fazer demais e desabar, reduz-se a frequência e a intensidade do mal-estar pós-esforço, dando estabilidade ao quadro. Em pessoas com PEM, o esforço acima do limiar parece desencadear uma resposta desproporcional, com piora que aparece de 12 a 72 horas depois; o pacing trabalha justamente esse limiar.
  • Evidência: as diretrizes NICE NG188 (COVID longa) e NG206 (encefalomielite miálgica/síndrome de fadiga crônica) recomendam gestão de energia e desaconselham a terapia de exercício graduado baseada em incremento fixo quando há PEM. A NG206 retirou a recomendação de GET após reanálise das evidências.
  • O que esperar: melhora flutuante ao longo de semanas a meses, com avanços e recuos, não uma curva linear. O ganho de capacidade vem depois da estabilização, e de forma gradual.
  • Indicações: fadiga pós-COVID, mal-estar pós-esforço, intolerância ao exercício. É a base sobre a qual as demais condutas se apoiam.
  • Limitações e cautelas: forçar exercício intenso na fase de piora costuma desencadear PEM. Quando há disautonomia ou intolerância ortostática, a reabilitação começa em posições recostadas (exercícios horizontais e recumbentes) antes de progredir para a posição em pé. Toda progressão é guiada pela resposta.

Acupuntura médica e eletroacupuntura

  • O que é: inserção de agulhas finas em acupontos por médico com formação específica; na eletroacupuntura, uma corrente de baixa intensidade conecta as agulhas. Na COVID longa, o alvo é a dor persistente e o apoio ao sono e à fadiga, não a reversão da condição.
  • Mecanismo (calibrado): modulação segmentar no corno dorsal da medula (a teoria da comporta), ativação das vias inibitórias descendentes (substância cinzenta periaquedutal, e bulbo rostroventromedial) e liberação de opioides endógenos. A baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas opioides. A correspondência entre a descrição tradicional por meridianos e a neurofisiologia contemporânea permanece objeto de estudo.
  • Evidência: evidência moderada para dor crônica e cefaleia, com recomendação de diretrizes em contextos selecionados. Há ainda revisão sistemática específica sobre acupuntura em sintomas neurológicos e psiquiátricos da COVID longa, com resultados promissores e necessidade de estudos maiores.
  • O que esperar: na dor pós-COVID, costuma-se trabalhar em poucas sessões semanais com reavaliação ao longo do ciclo; o alívio tende a ser progressivo e cumulativo, e o uso é dirigido também a reduzir a quantidade de medicamentos em quem já lida com muitos sintomas.
  • Indicações: dor miofascial, dor musculoesquelética difusa, cefaleia, e quando se busca diminuir a polifarmácia.
  • Limitações e efeitos: efeitos adversos raros e leves, como desconforto ou pequena equimose no local; cautela em uso de anticoagulantes. Não reverte a fadiga nem a disautonomia; é um recurso para o componente de dor dentro de um plano ativo.

Agulhamento seco para a dor miofascial pós-COVID

  • O que é: agulha de acupuntura inserida diretamente no ponto-gatilho miofascial, sem injetar substância. Boa parte da dor persistente pós-COVID vem desses pontos, formados pela inatividade e pela tensão mantida durante semanas de doença, sobretudo em trapézio, elevador da escápula e suboccipitais, que também sustentam a cefaleia cervical.
  • Mecanismo: a agulha provoca a resposta de contração local (local twitch response), que reduz a atividade elétrica espontânea da placa motora e a liberação local de substâncias ligadas à dor, com efeito analgésico local e segmentar. É um alívio que abre espaço para reativar o músculo que ficou semanas tenso e parado.
  • O que esperar: na dor miofascial pós-COVID, o alívio pode vir logo após a sessão ou ao longo dos dias seguintes, com leve dor no local por um a dois dias; a resposta é reavaliada para decidir se e quando repetir.
  • Indicações: síndrome dolorosa miofascial, pontos-gatilho em trapézio, elevador da escápula, suboccipitais e demais músculos sintomáticos; cefaleia de origem cervical.
  • Limitações e efeitos: dor local transitória e equimose; cautela em anticoagulados; a técnica torácica exige cuidado anatômico (risco de pneumotórax em mãos não treinadas). Trata a dor, não a fadiga nem a disautonomia.

Infiltração de pontos-gatilho e bloqueios anestésicos

  • O que é: quando um ponto-gatilho resiste ao agulhamento seco e à terapia manual, injeta-se anestésico local (ou soro fisiológico) no ponto; nos quadros mais localizados, um bloqueio anestésico ao redor de um nervo ou estrutura pode abrir uma janela de alívio.
  • Mecanismo: a infiltração interrompe o ciclo dor-espasmo-dor, bloqueando a aferência nociceptiva e relaxando a banda muscular tensa; o bloqueio interrompe temporariamente a condução nociceptiva, permitindo avançar a reabilitação.
  • O que esperar: alívio rápido do componente miofascial na infiltração; no bloqueio, alívio que pode durar de dias a semanas, usado como janela terapêutica para destravar o movimento.
  • Indicações: pontos-gatilho refratários; dor localizada e bem definida, como o bloqueio do nervo occipital na cefaleia cervicogênica pós-COVID refratária, que costuma acompanhar a tensão dos suboccipitais.
  • Limitações e efeitos: efeito temporário; desconforto local; são recursos pontuais, sempre combinados com exercício e dentro de um plano multimodal, nunca isolados.

Laser de alta intensidade como adjuvante

  • O que é: fotobiomodulação com laser de alta potência, aplicada sobre a área de dor musculoesquelética que limita o movimento.
  • Mecanismo (calibrado): efeito analgésico e anti-inflamatório em profundidade, com estímulo metabólico celular. É um adjuvante ao plano ativo, dirigido a uma região dolorosa específica.
  • O que esperar: séries de sessões com alívio progressivo, sempre acoplado à reabilitação.
  • Indicações: dor e inflamação musculoesquelética localizada na COVID longa, como apoio para destravar o movimento.
  • Limitações: recurso de controle de dor localizada; não atua sobre a fadiga, a disautonomia nem a condição como um todo.

Medicação como recurso adjuvante

  • O que é: a medicação alivia sintomas e abre espaço para a reabilitação; apoia a base ativa sem substituí-la nem tratar a causa.
  • Para a dor e a cefaleia: analgésicos simples e anti-inflamatórios por períodos curtos nas fases de dor. Quando há dor crônica com componente de sensibilização, podem-se considerar antidepressivos em dose baixa (amitriptilina, nortriptilina ou duloxetina) ou gabapentinoides (gabapentina, pregabalina), com ajuste progressivo conforme tolerância; sonolência e boca seca são efeitos comuns no início.
  • Para a disautonomia / POTS: a primeira linha é não farmacológica (sal e líquidos quando apropriado, meias de compressão, exercícios recumbentes). Quando insuficiente, o cardiologista pode considerar agentes específicos, sempre individualizados.
  • Limitações e cautelas: a prescrição, a dose e a duração são definidas pelo médico assistente, com atenção a efeitos adversos, interações e comorbidades. O uso por conta própria pode mascarar sinais de alerta e causar efeitos indesejados.
Da prática clínica

Estas observações vêm da rotina do consultório com pacientes pós-COVID. O que mais se repete é o ciclo “boom-bust”: no primeiro dia bom, a pessoa tenta recuperar tudo o que ficou para trás, e paga com dois ou três dias piores. Quando o foco muda de “treinar mais” para mapear e respeitar o envelope de energia, a curva costuma estabilizar antes de subir, e essa estabilização já é progresso.

Outro padrão frequente é a palpitação e a tontura ao levantar serem vividas como ansiedade, até que a avaliação aponta disautonomia, muitas vezes POTS, que tem manejo próprio. A dor que mais vemos é a miofascial de trapézio, elevador da escápula e suboccipitais, com cefaleia cervical associada, em quem passou semanas tenso e parado. O ponto que mais repito é não presumir que toda queixa é “só long COVID”: a falta de ar, o sintoma no peito e o desmaio merecem checagem cardíaca e respiratória antes de entrarem nesse rótulo. O que costuma surpreender o paciente é que descansar mais nem sempre ajuda na fadiga com PEM, e que o caminho é dosar a energia, não aumentar o repouso indefinidamente.

Semana 1 a 4

Mapear e estabilizar

Listar os sintomas um a um, triar PEM e intolerância ortostática, identificar o envelope de energia e iniciar o pacing; solicitar a investigação dirigida do que destoa (coração, pulmão, neurológico).

Semana 4 a 12

Tratar e reabilitar

Controle da dor miofascial e da cefaleia em clínica, reabilitação muito gradual respeitando o limiar de PEM, treino olfatório e medidas para a disautonomia; a fadiga e a dor costumam começar a ceder.

Após 12 semanas

Reavaliar o plano

Sem a resposta esperada, revê-se o diagnóstico, ajusta-se a conduta e reforça-se a investigação dos sintomas que destoam do conjunto.

A expectativa realista, alinhada desde o início, é de melhora gradual e flutuante. A meta é reduzir a dor e a fadiga a um nível que não limite a vida, recuperar função e dar ao corpo condições de tolerar a rotina, enquanto cada componente é cuidado por quem é da área. Quando a dor se concentra nas costas após a COVID, o raciocínio específico está no guia sobre dor nas costas e COVID.

Assista: AULA 1 Síndrome Pós Covid Versão2

A investigação que muda a conduta e os sinais de alerta

Antes de arquivar uma queixa como COVID longa, a investigação tem dois objetivos: afastar causas tratáveis que imitam o quadro e caracterizar o componente dominante para dirigir o tratamento. A regra prática se repete porque é o que evita erro: sintoma que progride, que limita muito a vida diária ou que destoa do resto do quadro merece avaliação dirigida; observar e esperar não basta nesses casos.

  • Triagem inicial ampla. Hemograma (anemia), TSH (tireoide), ferritina e, conforme o quadro, glicemia e marcadores de inflamação ajudam a afastar causas tratáveis de fadiga antes de rotular como COVID longa.
  • Cardiovascular e disautonomia. Palpitação, taquicardia e tontura ao levantar pedem avaliação cardiológica. O teste de inclinação ou a avaliação da frequência cardíaca em ortostase ajudam a identificar POTS; o aumento sustentado da frequência ao ficar de pé, sem queda relevante da pressão, é o achado que muda a conduta.
  • Respiratório. Dispneia desproporcional ou progressiva justifica avaliação da função pulmonar e imagem do tórax, com reabilitação respiratória quando indicada, antes de tratar como padrão respiratório disfuncional.
  • Neurológico. Névoa cognitiva progressiva, incapacitante ou com déficit focal vai à neurologia; cefaleia com sinais de alerta exige investigação dirigida.
  • Mal-estar pós-esforço. Triar PEM antes de prescrever exercício é o passo que mais muda a conduta: sua presença contraindica o exercício graduado forçado e direciona para o pacing.
Sinais de alerta · não espere

Procure atendimento imediato se houver

  • Dor no peito, aperto ou pressão no tórax, sobretudo com falta de ar ou suor frio.
  • Falta de ar importante, em repouso ou ao mínimo esforço, ou lábios e extremidades arroxeados.
  • Sintomas neurológicos novos: fraqueza ou dormência de um lado do corpo, alteração da fala, da visão ou da consciência.
  • Desmaio, palpitação intensa e contínua ou batimentos muito irregulares.
  • Inchaço e dor em uma perna, que podem sugerir trombose, sobretudo após a fase aguda.
  • Febre persistente, perda de peso sem explicação ou piora rápida do estado geral.

Esses sinais apontam para causas que não aguardam reabilitação, como evento cardíaco, problema respiratório agudo, evento neurológico ou trombose. Na ausência deles, a dor, a fadiga e a névoa cognitiva costumam evoluir bem com manejo sintomático e tempo. A orientação geral de quando e como investigar está no guia sobre a síndrome pós-COVID-19.

Referência reconhecida em dor

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).

SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

Posso fazer exercício com fadiga pós-COVID?

Com cautela e de forma individualizada. Se há mal-estar pós-esforço (PEM), impor exercício graduado forçado costuma piorar. A estratégia é o pacing: mapear o envelope de energia, manter a atividade abaixo desse teto e progredir muito devagar, guiado pela resposta. Quando há disautonomia, começa-se por exercícios recumbentes. Um acompanhamento ajuda a ajustar a carga sem disparar recaídas.

O que é o ciclo “boom-bust” e como quebrá-lo?

É o ciclo de aproveitar um dia bom para fazer demais e, em seguida, desabar por dias com piora dos sintomas (o mal-estar pós-esforço). Quebrá-lo é o objetivo central do pacing: distribuir as tarefas, descansar antes de esgotar e ficar abaixo do limite que dispara a piora, em vez de oscilar entre fazer tudo e não fazer nada.

Palpitação e tontura ao levantar depois da COVID: o que pode ser?

Esse conjunto aponta com frequência para disautonomia, muitas vezes a POTS, em que a frequência cardíaca sobe de forma sustentada ao ficar de pé. É tratável: hidratação, sal quando indicado, meias de compressão e recondicionamento gradual da postura ereta, começando por exercícios deitados. A avaliação cardiológica orienta a conduta e ajuda a confirmar o padrão.

A falta de ar pós-COVID é sempre dos pulmões?

Não. Pode ter causa pulmonar, cardíaca ou ser um padrão respiratório disfuncional. Por isso a ordem é afastar primeiro causa cardíaca e pulmonar, sobretudo quando a dispneia é progressiva ou vem com dor no peito; confirmado que não há causa estrutural, a reeducação respiratória ajuda a recuperar o fôlego.

O que a clínica de dor trata na COVID longa?

A clínica cuida da dor persistente (muscular, articular e miofascial) e da cefaleia, apoia o manejo da fadiga e conduz a reabilitação com pacing, usando recursos como acupuntura, eletroacupuntura e agulhamento seco dentro de um plano multimodal. Os demais componentes, como dispneia, disautonomia, névoa cognitiva progressiva e humor, são encaminhados ao especialista certo. Veja o guia sobre a síndrome pós-COVID-19.

Quando devo procurar atendimento com urgência?

Procure atendimento imediato se houver dor no peito, falta de ar importante (em repouso ou ao mínimo esforço), desmaio, palpitação intensa e contínua, sintomas neurológicos novos (fraqueza, alteração da fala ou da visão) ou inchaço e dor em uma perna. Esses sinais apontam para causas que não podem esperar.

Dra. Celia Yunes Portiolli
Sobre a autora
Dra. Celia Yunes Portiolli
CRM-SP 27.971RQE 5.148 / 19.469

Médica Especialista em Acupuntura, Dor e Pediatria. Atua com tratamentos em acupuntura, laserterapia e ventosaterapia para pacientes adultos e pediátricos.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Dr. Marcus Yu Bin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências5 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Soriano JB, Murthy S, Marshall JC, Relan P, Diaz JV; WHO Clinical Case Definition Working Group on Post-COVID-19 Condition. A clinical case definition of post-COVID-19 condition by a Delphi consensus. Lancet Infect Dis. 2022;22(4):e102 a e107. acessar
  2. National Institute for Health and Care Excellence (NICE), SIGN, RCGP. COVID-19 rapid guideline: managing the long-term effects of COVID-19 (NG188). NICE. 2024. acessar
  3. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Myalgic encephalomyelitis (or encephalopathy) / chronic fatigue syndrome: diagnosis and management (NG206). NICE. 2021. acessar
  4. Kemp et al. Dor Crônica após COVID-19: Implicações para a Reabilitação. British Journal of Anaesthesia. 2020. ver resumo
  5. Lam et al. Acupuntura para sintomas neurológicos e psiquiátricos na COVID longa: revisão sistemática. Frontiers in Neurology. 2024. ver resumo
Atualizado em 6 jun 2026 Leitura 13 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica. Cada caso é único e o plano deve ser individualizado após consulta.

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