Paralisia de Bell (paralisia facial)
A paralisia de Bell é a paralisia facial periférica mais comum, com perda súbita de força de um lado do rosto por inflamação do nervo facial. A recuperação costuma ser boa com corticoide precoce.
- Paralisia de Bell é a paralisia facial periférica idiopática: fraqueza súbita de um lado inteiro do rosto, da testa ao canto da boca, por inflamação do nervo facial. O CID-10 é G51.0.
- O sinal que mais distingue da paralisia central (como no AVC) é a testa: na Bell, a testa do lado afetado não enruga e o olho não fecha; no AVC, a testa costuma ser poupada.
- Corticoide oral começado nas primeiras 72 horas aumenta a chance de recuperação completa. Vesículas na orelha ou dor intensa sugerem Ramsay-Hunt e mudam o tratamento.
- A reabilitação e a acupuntura entram como adjuvantes para função e dor; não substituem o corticoide nem o atendimento de urgência quando há sinais de AVC.
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O que é a paralisia de Bell
A paralisia de Bell é uma paralisia facial periférica de início agudo e causa não identificável, que afeta um lado do rosto por disfunção do nervo facial. É a causa mais frequente de paralisia facial: responde por cerca de 60 a 75 por cento dos casos, com incidência em torno de 20 a 30 a cada 100 mil pessoas por ano.
O nervo facial controla quase toda a musculatura da mímica de um lado da face: levantar a sobrancelha, fechar o olho com força, inflar a bochecha, mostrar os dentes, fazer bico. Ele também carrega fibras que dão sensação de gosto nos dois terços anteriores da língua, controlam uma glândula da lágrima e do ouvido e modulam a sensibilidade ao som. Por isso a queixa não se resume à boca torta: pode incluir olho que não fecha e lacrimeja, alteração do paladar, e som que parece alto demais de um lado (hiperacusia).
O nervo percorre um canal ósseo estreito dentro do crânio (o canal de Falópio, no osso temporal). Quando inflama e incha, esse túnel rígido não dá espaço, e a compressão interrompe a condução do impulso. A teoria mais aceita liga essa inflamação à reativação de um vírus latente, sobretudo o herpes simples tipo 1, num nervo já predisposto. O termo “idiopática” significa que, no exame de rotina, não se identifica uma causa estrutural.
Vale separar dois termos que confundem. Paralisia facial é o sintoma (a fraqueza do rosto), que tem várias causas. Paralisia de Bell é uma dessas causas, a idiopática e periférica. Há ainda a distinção entre paralisia periférica, em que o problema está no próprio nervo facial e atinge a face inteira de um lado, e paralisia central, em que a lesão está no cérebro (como num AVC) e costuma poupar a testa. Essa diferença, detalhada na seção «Bell, AVC ou Ramsay-Hunt», é o que define se a situação é uma urgência.
Como se manifesta e quanto tempo dura
O quadro instala-se rápido. A fraqueza atinge o pico em geral em 24 a 72 horas, o que assusta porque muita gente acorda já com a boca torta ou percebe a face caída ao longo de um único dia. Alguns notam, um a dois dias antes, dor atrás da orelha do lado que vai ser afetado. O lado paralisado fica liso: a testa não enruga, a sobrancelha cai, o sulco entre o nariz e a boca se apaga, e o canto da boca pende.
O sintoma que mais preocupa no curto prazo é o olho. Como a pálpebra não fecha por completo (lagoftalmo), a córnea fica exposta e seca, com risco de lesão. Por isso a proteção ocular, com lágrima artificial de dia, pomada lubrificante e oclusão à noite, entra desde a primeira consulta, antes mesmo de qualquer expectativa de melhora da força. Outras queixas comuns são gosto metálico ou reduzido, sons que ecoam altos de um lado e dificuldade para reter líquido ou comida no canto da boca.
Sobre o tempo: a maioria começa a recuperar movimento entre duas e três semanas, e boa parte chega à recuperação completa em três a quatro meses. Quem tem paralisia parcial (algum movimento preservado já no início) tende a ter prognóstico melhor do que quem tem paralisia total. A recuperação detalhada, com os marcos semana a semana e o que esperar em cada fase, é o tema da página irmã sobre quanto tempo dura a paralisia facial. Aqui o foco é diagnóstico e tratamento.
Boca torta que aparece de uma hora para outra, com a testa do mesmo lado também sem força e o olho que não fecha, é o retrato clássico da paralisia periférica. Se a testa enruga normalmente, pense em causa central e procure uma emergência.
Bell, AVC ou Ramsay-Hunt: o que muda
A pergunta mais importante diante de uma face caída não é “é Bell?”, e sim “é periférica e benigna, ou é uma causa que exige ação imediata?”. Três quadros dominam essa decisão, e a diferença entre eles muda completamente a conduta no primeiro dia.
O divisor de águas é a testa. O território da metade superior da face recebe comando dos dois lados do cérebro. Numa lesão central, como no AVC, a testa do lado afetado continua enrugando, porque o outro hemisfério a supre; cai sobretudo a metade de baixo do rosto.
Na paralisia de Bell, periférica, o nervo inteiro está comprometido, então a testa também fica parada e o olho não fecha. Quando a fraqueza vem acompanhada de fala enrolada, fraqueza ou dormência no braço ou na perna, perda de equilíbrio ou alteração visual súbita, a hipótese é AVC até prova em contrário: ligue para o SAMU (192) e vá para um pronto-socorro, porque o tempo de tratamento do AVC é curto.
A Síndrome de Ramsay-Hunt (herpes-zóster ótico) é a outra causa que não pode passar batida. É a reativação do vírus da catapora (varicela-zóster) no gânglio do nervo facial, e cursa com dor intensa no ouvido, vesículas (pequenas bolhas) no pavilhão da orelha ou no canal auditivo, e por vezes vertigem e perda auditiva. Costuma ter recuperação pior que a Bell e exige antiviral em dose adequada além do corticoide, idealmente nas primeiras 72 horas. Por isso a inspeção da orelha faz parte do exame de qualquer paralisia facial.
| Quadro | Testa do lado afetado | Pistas que diferenciam | Conduta |
|---|---|---|---|
| Paralisia de Bell (periférica) | Não enruga; olho não fecha | Face inteira de um lado; instala em 24 a 72 h; sem outros déficits neurológicos | Corticoide precoce; proteção ocular; avaliação clínica |
| AVC (central) | Costuma enrugar (poupada) | Fala enrolada, braço/perna fracos, desequilíbrio, alteração visual súbita | Urgência: SAMU 192, pronto-socorro imediato |
| Síndrome de Ramsay-Hunt | Não enruga (também periférica) | Dor forte no ouvido, vesículas na orelha, vertigem, perda auditiva | Antiviral + corticoide precoce; refer otorrino/neuro |
| Outras (tumor, trauma, otite) | Variável | Início lento (semanas), trauma, infecção de ouvido, déficit progressivo | Investigar com imagem; refer especialista |
Um detalhe temporal ajuda: a Bell é súbita. Uma paralisia facial que se instala devagar ao longo de semanas, ou que não dá nenhum sinal de melhora após três a quatro meses, sai do roteiro da Bell típica e pede investigação com exame de imagem para afastar causas estruturais, como um tumor comprimindo o trajeto do nervo. Esse mesmo raciocínio de diferenciar a dor e o déficit benignos das bandeiras de alarme guia o atendimento de outros quadros neurológicos, como na neuralgia do trigêmeo.
Diante de um rosto que cai de repente, a primeira pergunta não é “é Bell?”, e sim uma só: a testa do lado afetado ainda se mexe? A paralisia de Bell paralisa a hemiface inteira, testa inclusive, então quem tem Bell não consegue erguer a sobrancelha nem enrugar a testa daquele lado. Um AVC costuma poupar a testa, porque a parte de cima do rosto recebe comando dos dois hemisférios cerebrais. Logo, a regra de bolso é contraintuitiva: a paralisia com a testa poupada (a testa ainda enruga, e cai sobretudo a metade de baixo do rosto) é a mais perigosa, é AVC até prova em contrário, e isso é uma emergência (SAMU 192), não uma consulta a marcar para a semana seguinte. A face caída em que nem a testa se mexe, isoladamente e sem outros sinais, é a que tende a ser a Bell benigna.
Como é feito o diagnóstico e o CID
O diagnóstico da paralisia de Bell é clínico: feito pela história e pelo exame físico, não por um exame de laboratório ou de imagem específico. O médico confirma que a fraqueza é periférica (acomete a testa e o fechamento do olho), unilateral, de início agudo, e que não há outros sinais neurológicos que apontem para o cérebro nem vesículas que sugiram Ramsay-Hunt. Quando esse padrão está presente, exames de imagem não são necessários de rotina.
Para registrar a gravidade e acompanhar a evolução, usa-se a escala de House-Brackmann, que gradua a função facial de I (normal) a VI (paralisia total). Ela serve para comparar consultas e medir a recuperação de forma objetiva, em vez de depender da impressão geral. Em casos selecionados, sobretudo na paralisia total que não melhora, a eletroneuromiografia ajuda a estimar o quanto do nervo foi afetado e a refinar o prognóstico.
Sobre os códigos da CID, que muitos procuram para atestados e prontuário: a paralisia de Bell tem o código CID-10 G51.0. O termo mais amplo paralisia facial periférica cai no mesmo grupo dos transtornos do nervo facial (G51), e a paralisia facial de origem central, como sequela de AVC, é codificada conforme a doença de base, não como G51.0. O código existe para fins administrativos e estatísticos; ele não define a gravidade nem o tratamento, que dependem do exame.
Quadro típico
Início em 24 a 72 h, face inteira de um lado, testa sem força, olho que não fecha, sem outros déficits, sem vesículas na orelha. Diagnóstico clínico, sem imagem de rotina.
Fora do roteiro
Instalação lenta em semanas, ausência de qualquer melhora após 3 a 4 meses, recidivas, déficit progressivo ou outros nervos acometidos. Aí entram imagem e encaminhamento.
Tratamento: o que muda o prognóstico
O tratamento da paralisia de Bell tem três frentes que correm juntas: medicação na fase aguda (o que mais influencia o resultado), proteção do olho (o que evita uma complicação séria) e reabilitação (o que recupera função e trata a dor associada). A maioria das pessoas recupera-se bem; a meta é aumentar a chance de recuperação completa e reduzir o risco de sequela.
Corticoide oral precoce
Prednisona ou prednisolona em dose decrescente; reduz a inflamação e o edema do nervo no canal ósseo apertado.
Proteção ocular
Lágrima artificial de dia, pomada e oclusão da pálpebra à noite enquanto o olho não fecha, para evitar lesão de córnea.
Antiviral associado
Aciclovir ou valaciclovir somados ao corticoide nos casos graves e, sobretudo, na suspeita de Ramsay-Hunt.
Reeducação neuromuscular
Exercícios de mímica suaves e simétricos diante do espelho; retreina o controle e previne sincinesias.
Acupuntura e eletroacupuntura
Adjuvante, somada ao tratamento médico, para apoiar a função e a dor periauricular; parâmetros leves na face aguda.
Laser de baixa potência
Fotobiomodulação estudada como apoio à recuperação do nervo; entra como adjuvante, não como tratamento isolado.
Corticoide na fase aguda: a medida que mais pesa
- O que é
- Corticoide oral (em geral prednisolona ou prednisona), em dose decrescente por cerca de dez dias. É o pilar do tratamento da paralisia de Bell.
- Mecanismo
- Se o nervo está inflamado e inchado dentro de um canal ósseo apertado, reduzir essa inflamação alivia a compressão e melhora a chance de o nervo voltar a conduzir bem.
- Evidência
- Forte Ensaios clínicos e revisões sistemáticas mostram que o corticoide iniciado cedo, idealmente nas primeiras 72 horas, aumenta a proporção de pessoas que alcançam recuperação completa.
- O que esperar
- Maior chance de recuperação completa do movimento. O acompanhamento usa a escala de House-Brackmann e o retorno das funções da face.
- Indicações
- Paralisia facial periférica não deve esperar: avaliação no mesmo dia ou no dia seguinte abre a janela de maior benefício.
- Limitações
- A dose, a duração e os cuidados são definidos pelo médico, com atenção a diabetes, hipertensão e outras condições.
Acupuntura e eletroacupuntura como adjuvantes
- O que é
- Terapia complementar, somada ao tratamento médico, com agulhamento em acupontos da região frontal, orbicular e perioral; na eletroacupuntura, uma corrente de baixa frequência adiciona estimulação neuromuscular.
- Mecanismo
- Combina modulação da dor periauricular por vias inibitórias segmentares com estimulação local da musculatura da mímica e da microcirculação da hemiface afetada.
- Evidência
- Limitada Várias revisões apontam possível benefício na recuperação funcional, mas com estudos frágeis (certeza baixa a muito baixa). Plausível e de baixo risco quando bem indicada.
- O que esperar
- Apoio à recuperação funcional e alívio da dor periauricular. A frequência e a duração seguem a escala de House-Brackmann e o retorno de cada função, não um pacote pré-determinado.
- Indicações
- Entra acoplada à reeducação neuromuscular e ao acompanhamento do corticoide, nunca como sessão isolada nem ciclo fechado de número fixo.
- Limitações
- Na face em fase aguda usam-se parâmetros leves, de baixa intensidade: estimular com força um nervo recém-inflamado pode favorecer as sincinesias. Jamais substitui a janela de 72 horas do corticoide.
Laser de baixa potência, calor e o mito do “choque térmico”
O laser de baixa potência (fotobiomodulação) é estudado como adjuvante na recuperação do nervo facial, com resultados promissores porém ainda de evidência limitada; entra como apoio, não como tratamento isolado. O calor local suave e a massagem facial confortam e ajudam na mobilidade. Quanto à crença de que a paralisia vem de “vento” ou “choque térmico”, não há comprovação de que ar-condicionado ou vento causem a Bell; o gatilho é a inflamação do nervo, provavelmente viral. Evitar exposição não previne a doença, embora calor e conforto possam aliviar a dor periauricular.
Fase aguda
Confirmar diagnóstico, afastar AVC e Ramsay-Hunt, iniciar corticoide e proteção ocular. É a janela que mais influencia o prognóstico.
Início da recuperação
Costuma surgir algum retorno de movimento; começa a reabilitação com exercícios suaves de mímica e, quando indicado, acupuntura adjuvante.
Reavaliação
Boa parte recupera bem nesse período. Ausência de melhora pede reavaliação, eletroneuromiografia e investigação de outras causas.
O acompanhamento usa a escala de House-Brackmann e o retorno das funções da face. A maioria recupera-se bem, mas uma parcela fica com graus variados de sequela (alguma assimetria, sincinesias ou olho mais seco), e quem tem paralisia total inicial ou começa o tratamento tarde tende a ter recuperação mais lenta.
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
Na paralisia facial periférica, a reabilitação não substitui o corticoide da fase aguda, mas é o eixo que recupera função, treina de novo o controle da mímica e previne sequelas como as sincinesias. As técnicas posturais e de movimento globais (RPG, Pilates clínico, cinesioterapia) entram pelo eixo do controle motor e da consciência corporal; o trabalho específico é a reeducação neuromuscular da face. Na clínica, essa etapa é conduzida individualmente, um paciente por sala, dentro de um plano multimodal com indicação médica e em paralelo ao tratamento medicamentoso.
Movimento suave e simétrico vale mais do que esforço vigoroso: o nervo está inflamado e em recuperação, e exercícios fortes e assimétricos tendem a reforçar padrões errados e a favorecer movimentos involuntários. A proteção do olho que não fecha caminha junto com a reabilitação desde o primeiro dia, porque a complicação mais séria da fase inicial não é a fraqueza em si, e sim a lesão da córnea exposta. A escolha entre as técnicas e a ordem de introdução dependem do grau de paralisia (escala de House-Brackmann), da fase de recuperação e da resposta individual.
Reeducação neuromuscular facial e exercícios de mímica
Programa específico para a face (frontal, orbicular dos olhos, zigomáticos, orbicular da boca, bucinador) diante do espelho. Usa o feedback visual para retreinar o controle seletivo de cada grupo, com movimentos lentos, de pequena amplitude e simétricos que desencorajam a coativação anômala que origina as sincinesias. Inclui relaxamento e alongamento dos músculos hipertônicos; o fortalecimento puro é a parte menos importante. Limitação: exercícios fortes e em máxima amplitude na fase precoce, ou a estimulação elétrica vigorosa, podem reforçar padrões de massa e aumentar o risco de sincinesia, e por isso são evitados. A reeducação não acelera a regeneração do nervo; otimiza o resultado funcional do que ele recupera.
Biofeedback diante do espelho
Usa o espelho (e, em alguns serviços, o biofeedback eletromiográfico) como retorno em tempo real para que a pessoa perceba e corrija o próprio movimento. Ao tornar visível a assimetria e a coativação, ajuda a inibir conscientemente a sincinesia e a recrutar de forma mais seletiva o músculo-alvo. Limitação: evidência favorável, porém de magnitude variável e baseada em estudos pequenos; o ganho depende da adesão à prática regular. É complemento da reeducação, não terapia isolada.
Cuidados oculares e proteção da córnea
Conjunto de medidas não medicamentosas e de lubrificação enquanto a pálpebra não fecha por completo (lagoftalmo). Com o piscar comprometido, a córnea fica exposta e seca, com risco de ceratite e úlcera. Combina lágrima artificial ao longo do dia, pomada lubrificante e oclusão da pálpebra à noite (câmara úmida ou curativo apropriado), além de óculos contra vento e poeira. Limitação: dor ocular, vermelhidão importante ou queda da visão pedem avaliação oftalmológica sem demora.
RPG, Pilates clínico e cinesioterapia postural
Reeducação postural global, controle motor e respiração, complementares à reabilitação específica da face. A RPG trabalha o corpo por cadeias musculares com alongamento ativo mantido; o Pilates clínico enfatiza estabilização, controle do movimento e respiração; a cinesioterapia é o exercício terapêutico individualizado. Ajudam no componente cervical e postural que costuma acompanhar o quadro, no relaxamento e na consciência corporal, que favorecem um trabalho facial calmo e simétrico. Limitação: o papel direto sobre o nervo facial é limitado; entram como apoio ao bem-estar e ao componente postural, não como o tratamento da face.
A reabilitação é mais relevante e mais bem sustentada nos quadros de recuperação incompleta ou com sincinesias instaladas do que na Bell leve, que costuma recuperar sozinha. Na clínica, ela é integrada à avaliação médica, de modo que o programa é ajustado ao grau de paralisia, à fase de recuperação e à presença ou não de sincinesias, sempre em paralelo ao corticoide da fase aguda e à proteção ocular.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
Na paralisia de Bell, a cirurgia é exceção, e a notícia que mais importa é favorável: a maioria das pessoas recupera bem sem qualquer procedimento, apenas com o tratamento clínico e a reabilitação. Por isso a abordagem cirúrgica não faz parte do roteiro habitual e fica reservada a cenários específicos. Estas opções não são realizadas em nossa clínica.
Conservador · 1ª escolha
Tratamento clínico e reabilitação
- Corticoide precoce, proteção ocular e reabilitação resolvem a grande maioria dos casos.
- A maioria das pessoas com paralisia de Bell não chega a qualquer cirurgia.
- Acompanhamento pela escala de House-Brackmann e pelo retorno das funções da face.
Cirúrgico · exceção
Casos selecionados, fora da clínica
- Descompressão do nervo na fase aguda: rara e controversa, só na paralisia total com degeneração grave.
- Reanimação facial: para sequelas crônicas que não responderam à reabilitação.
- Procedimentos do olho e estáticos: quando o olho não fecha de forma duradoura.
Dois cenários distintos discutem cirurgia, e é importante separá-los. O primeiro é a descompressão cirúrgica do nervo facial na fase aguda, que abre o canal ósseo (o canal de Falópio) para aliviar a compressão do nervo inchado: é raro e controverso, reservado a casos muito selecionados de paralisia total com sinais eletrofisiológicos de degeneração grave e precoce, avaliados com eletroneuromiografia dentro de uma janela curta, em centros de referência. Não é indicado para a Bell típica e carrega riscos próprios. O segundo cenário, mais relevante na prática, é o das sequelas crônicas, quando persiste uma paralisia incapacitante ou assimetria importante que não respondeu à reabilitação.
A grande maioria das pessoas com paralisia de Bell não chega a qualquer cirurgia, porque recupera com o tratamento clínico. Nos casos de sequela, a reanimação facial pode melhorar de forma significativa a simetria e o movimento, mas é um processo longo, com reabilitação prolongada; a decisão é compartilhada e pesa o benefício esperado contra os riscos próprios de cada técnica.
Além da cirurgia, o percurso da paralisia facial costuma envolver mais de uma especialidade, e reconhecer o momento de encaminhar faz parte do cuidado.
Causa central
Neurologia
Entra quando há dúvida sobre causa central (afastar AVC), déficit progressivo ou outros nervos acometidos.
Osso temporal e audição
Otorrino / otoneurologia
Conduz a investigação na suspeita de causa no osso temporal, na Síndrome de Ramsay-Hunt com vertigem e perda auditiva, ou quando se cogita avaliação eletrofisiológica.
Proteção do olho
Oftalmologia
Acionada para o olho que não fecha, diante de dor ocular, vermelhidão ou queda de visão, e para as correções palpebrais.
Quando o quadro exige essas opções, o papel do cuidado de base é explicar o que cada caminho oferece e encaminhar a quem os executa, mantendo a reabilitação e o acompanhamento como eixo.
Tratamento medicamentoso
Na paralisia de Bell, ao contrário da maioria das dores musculoesqueléticas, a medicação da fase aguda ocupa o centro do tratamento: o corticoide precoce é a medida com maior impacto sobre o prognóstico.
| Classe | Para quê | Evidência | O que esperar e limites |
|---|---|---|---|
| Corticoide oral (prednisona, prednisolona) | Primeira linha e pilar. Reduz a inflamação e o edema do nervo no canal ósseo apertado, aliviando a compressão; dose decrescente por ~10 dias, iniciada idealmente nas primeiras 72 horas. | Forte | Aumenta a proporção de pessoas que alcançam recuperação completa. Atenção a diabetes, hipertensão, glaucoma e infecções. |
| Antiviral (aciclovir, valaciclovir) | Seletivo, não rotineiro. Associado ao corticoide na paralisia grave ou completa e, sobretudo, na suspeita de Ramsay-Hunt (herpes-zóster ótico), em que o componente viral é claro. | Moderada | Isolado, não muda o desfecho da Bell típica; por isso não é indicado sozinho. Escolha e dose são individuais e médicas. |
| Lubrificante ocular (lágrima artificial, pomada) | Prevenção, não recuperação do nervo. Enquanto o olho não fecha, mantém a córnea protegida e evita a ceratite por exposição: lágrima de dia, pomada à noite. | Forte | Medida simples, de baixo custo e alto impacto sobre o risco ocular. Mantém-se até o fechamento da pálpebra voltar. |
| Analgésicos simples (paracetamol, dipirona) | Dor atrás da orelha da fase inicial, por período curto. | Moderada | Manejo adjuvante e por tempo definido. Não aceleram a recuperação do nervo. |
| Adjuvantes neuropáticos (amitriptilina, nortriptilina; gabapentina, pregabalina) | Quando persiste componente neuropático (queimação, choques no trajeto), em situações selecionadas e com indicação médica. | Limitada | Aliviam o sintoma, mas não aceleram a recuperação do nervo. Atenção a sonolência, tontura e boca seca. |
| Toxina botulínica | Em sequelas crônicas com sincinesias ou espasmos, aplicada de forma seletiva para reequilibrar a mímica. | Moderada | Sempre por indicação especializada e dentro de um plano de reabilitação; não é tratamento da fase aguda. |
Em resumo, o eixo medicamentoso da paralisia de Bell é o trio da fase aguda — corticoide precoce, antiviral quando indicado e lubrificação ocular —, ao qual se somam analgesia adjuvante e, nas sequelas crônicas, a toxina botulínica seletiva. A condução, a dose e a indicação de cada classe são individualizadas pelo médico assistente conforme o exame, a escala de House-Brackmann e as comorbidades.
Quando é urgência
A paralisia de Bell em si não é uma emergência neurológica, mas alguns sinais junto com a face caída transformam a situação em urgência e não podem esperar:
Ligue para o SAMU (192) ou vá ao pronto-socorro se houver
- Fala enrolada, fraqueza ou dormência em braço ou perna, queda de um lado do corpo, sugerindo AVC.
- Testa do lado afetado que ainda enruga normalmente, com a fraqueza concentrada na metade de baixo do rosto.
- Perda súbita de equilíbrio, visão dupla, dificuldade para engolir ou dor de cabeça forte e diferente do habitual.
- Dor intensa no ouvido com vesículas na orelha, vertigem ou perda auditiva, sugerindo Ramsay-Hunt.
- Paralisia que surge após trauma na cabeça ou no contexto de infecção de ouvido.
“Boca torta é sempre AVC” ou, no extremo oposto, “paralisia facial é sempre Bell e passa sozinha, não precisa de médico”.
A maioria das faces caídas periféricas é Bell, benigna, mas só o exame separa da causa central. E mesmo a Bell se beneficia de avaliação rápida: o corticoide nas primeiras 72 horas melhora a chance de recuperação completa.
Referência reconhecida em dor
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).
Perguntas frequentes
Qual é o CID da paralisia de Bell e da paralisia facial periférica?
A paralisia de Bell tem o código CID-10 G51.0. A paralisia facial periférica em geral pertence ao mesmo grupo dos transtornos do nervo facial (G51). A paralisia facial central, como sequela de AVC, é codificada conforme a doença de base. O código serve a fins administrativos e estatísticos e não define, sozinho, gravidade ou tratamento, que dependem do exame médico.
A acupuntura serve para paralisia de Bell?
A acupuntura pode ser usada como terapia complementar, somada ao tratamento médico, para apoiar a recuperação funcional e a dor periauricular. A evidência é de qualidade limitada (baixa a muito baixa) e não substitui o corticoide precoce, que é a medida com maior impacto no prognóstico. Quando bem indicada e integrada à reabilitação, é de baixo risco.
Como sei se é paralisia de Bell ou AVC?
A pista principal é a testa. Na paralisia de Bell (periférica), a testa do lado afetado não enruga e o olho não fecha. No AVC (central), a testa costuma ser poupada e a fraqueza concentra-se na metade de baixo do rosto, muitas vezes com fala enrolada, fraqueza no braço ou perna e desequilíbrio. Diante de qualquer um desses sinais associados, trate como urgência: SAMU 192 e pronto-socorro imediato.
O que é a Síndrome de Ramsay-Hunt e por que importa?
É uma paralisia facial causada pela reativação do vírus da catapora (varicela-zóster) no nervo facial. Cursa com dor intensa no ouvido, vesículas na orelha e, às vezes, vertigem e perda auditiva. Costuma recuperar pior que a Bell e exige antiviral além do corticoide, idealmente nas primeiras 72 horas. Por isso a orelha sempre é examinada numa paralisia facial.
Boca torta volta ao normal?
Na maioria dos casos de paralisia de Bell, sim: boa parte das pessoas recupera bem em três a quatro meses, sobretudo quando o corticoide é iniciado cedo e a paralisia é parcial. Uma parcela fica com algum grau de sequela, como leve assimetria ou sincinesias. O tratamento precoce e a reabilitação aumentam a chance de um bom resultado. A linha do tempo detalhada está na página sobre quanto tempo dura a paralisia facial.
Vento ou ar-condicionado no rosto causa paralisia facial?
Não há comprovação de que vento, ar-condicionado ou “choque térmico” causem paralisia de Bell. O mecanismo aceito é a inflamação do nervo facial, provavelmente por reativação viral. Evitar exposição não previne a doença. Calor e conforto locais podem aliviar a dor atrás da orelha, mas não mudam a causa nem o curso.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências5 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Baugh RF, Basura GJ, Ishii LE, et al. Clinical practice guideline: Bell’s palsy. Otolaryngol Head Neck Surg. 2013;149(3 Suppl):S1-S27.
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- Madhok VB, Gagyor I, Daly F, et al. Corticosteroids for Bell’s palsy (idiopathic facial paralysis). Cochrane Database Syst Rev. 2016;7:CD001942.
- Li P, Qiu T, Qin C. Efficacy of acupuncture for Bell’s palsy: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. PLoS One. 2015;10(5):e0121880.
- Conselho Federal de Medicina (CFM). Normas éticas sobre publicidade médica e práticas integrativas.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica de cada caso. Na paralisia facial, o tempo é parte do tratamento: a janela de 72 horas para o corticoide e a necessidade de afastar AVC e Ramsay-Hunt fazem da avaliação rápida uma prioridade, e qualquer face caída com sinais neurológicos associados é uma urgência (SAMU 192), não um agendamento. A conduta, a dose do corticoide e a indicação de antiviral, reabilitação ou acupuntura são individualizadas pelo médico assistente conforme o exame, o grau na escala de House-Brackmann e as comorbidades.
